“Não há tempo para perder.” É esta a mensagem central de vários discursos do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, quando o que está em causa é a importância de reduzir as emissões de gases com efeitos de estufa, que contribuem para o aquecimento global. Os relatórios do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU (IPCC) sublinham também esta urgência e revelam as consequências do aumento das temperaturas, tanto as que estão por vir quanto aquelas que já se fazem notar.
Eventos extremos mais frequentes e mais intensos
É verdade que sempre existiram secas, inundações e ciclones tropicais, mas a evidência científica aponta para um aumento na frequência e na intensidade destes fenómenos, relacionado com o aquecimento global e as alterações climáticas com origem na ação humana.
Segundo um artigo publicado no site Organização Meteorológica Mundial e alicerçado na pesquisa do IPCC, “a ocorrência de eventos extremos não tem precedentes nos registos observados e irá crescer com o aumento do aquecimento global”.
Os especialistas do IPCC concluem ainda, num relatório redigido em 2021, ser provável que a influência humana tenha aumentado a possibilidade de ocorrência de eventos extremos “desde os anos 1950”, por exemplo, no que diz respeito a “aumentos na frequência de ondas de calor e secas à escala global”.
Mais mortalidade e morbilidade
As temperaturas extremas refletem-se também na saúde ao comprometerem a capacidade do corpo de regular a sua temperatura. Por isso, o calor extremo pode estar associado a múltiplas doenças e agravar condições de saúde preexistentes, além de poder resultar num aumento do número de mortes, sobretudo em grupos mais vulneráveis como os idosos, as crianças e as grávidas.
Segundo um relatório do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, morrem 700 pessoas anualmente devido ao calor excessivo nos Estados Unidos. Durante maio e junho de 2021, houve 3.505 consultas de urgência devido às temperaturas elevadas em quatro estados norte-americanos, 79% das quais ocorreram durante seis dias (25 a 30 de junho), quando os estados de Washington e Oregon estavam sob alerta de calor excessivo.
Por cá, a Direção-Geral da Saúde (DGS) lembra que as ondas de calor podem conduzir “ao agravamento de doenças crónicas, a um esgotamento ou a um golpe de calor, situação muito grave e que pode provocar danos irreversíveis na saúde, ou inclusive levar à morte”.
No mesmo sentido, um artigo publicado na revista científica “Nature Reviews Cardiology” assinala que “os efeitos combinados do calor, da poluição atmosférica, da idade e do estatuto socioeconómico e sanitário são responsáveis por evitáveis eventos agudos de doenças cardiovasculares”.
Aquecimento dos oceanos e subida do nível do mar
O aquecimento global também já chegou aos oceanos, que estão a ficar mais quentes devido ao aumento geral da temperatura da Terra, uma vez que, devido às suas características, absorvem esta energia que fica a pairar entre a atmosfera e o oceano. Por isso, quanto mais energia houver na atmosfera, mais energia é absorvida pelos oceanos e, assim, pouco a pouco, vão aquecendo.
Outro dos efeitos relacionados com o aquecimento global é a subida do nível médio das águas do mar. Segundo os dados disponibilizados pelo Serviço de Monitorização do Meio Marinho do programa Copernicus, o nível médio das águas do mar “aumentou a uma taxa média de 3,2 milímetros por ano desde 1993, representando um aumento total de cerca de 9 cm entre 1993 e 2021”.
Um relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) indica que o aquecimento dos oceanos (isto é, a sua expansão térmica) é um dos fatores que podem explicar a subida do nível do mar num período de cem anos. De acordo com os dados do programa Copernicus, “cerca de 30% do aumento do nível médio das águas do mar pode ser atribuído à expansão térmica do oceano”, sendo que também contribui para esta subida “o derretimento de glaciares e das camadas de gelo polar”.

Num documento da Comissão Europeia (CE) aponta-se a previsão de que, na Europa, – e dependendo do tempo que demorar o degelo da camada da Antártica – os níveis das águas do mar subam em média 60 a 80 centímetros até ao final do século. Esta subida contribui para o risco de inundações e erosão perto da costa, resultando em consequências significativas para a natureza, a população e as infraestruturas nas zonas litorais.
Além disso, esta subida no nível médio das águas do mar reduz também a quantidade de água doce disponível devido à penetração da água do mar nos lençóis freáticos (reservas de água presentes na linha subterrânea do solo), o que poderá conduzir a uma intrusão de água salgada nas massas de água doce, afetando a agricultura e o abastecimento de água potável.
O mesmo texto destaca que a “a biodiversidade nos habitats costeiros também será afetada, assim como os serviços e bens naturais que fornecem”. Por fim, “muitas zonas húmidas desaparecerão, ameaçando espécies de aves e plantas únicas e eliminando a proteção natural que estas zonas proporcionam contra as tempestades”.
Nota: este artigo foi originalmente publicado no Polígrafo Portugal, sendo agora republicado no âmbito de uma parceria de conteúdos entre as duas publicações.

