Após a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) ter anunciado a Indra como vencedora do concurso público para a implementação da solução tecnológica nas eleições gerais de 2027, multiplicaram-se, nas redes sociais e em alguns meios de comunicação, reacções à escolha da empresa espanhola.
Em reacção ao anúncio, o presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, afirmou, durante as Jornadas Parlamentares alusivas aos 60 anos do maior partido da oposição, que a contratação da empresa reflecte “medo” por parte do Governo angolano.
Por sua vez, a Comissão Política do Bloco Democrático (BD), liderada por Filomeno Vieira Lopes, classificou a decisão como a “consagração da fraude”.
Já o Partido Liberal (PL) informou que irá avançar com um pedido de impugnação do concurso público que declarou a empresa espanhola como vencedora.
Em sentido contrário, Bali Chionga, comentador e militante do MPLA, manifestou-se optimista quanto à escolha, sublinhando que a Indra possui vasta experiência e reputação no mercado de soluções tecnológicas para processos eleitorais.
“Mas qual é o problema com a Indra? Acha que, se a empresa fosse corrupta, teria essa cotação internacional?”, questionou.
Nas redes sociais, alguns utilizadores pediram também a anulação do concurso.
No WhatsApp, por exemplo, circulam mensagens que sustentam suspeitas com base na alegação de que a Indra foi investigada por pagar comissões a intermediários para fornecer soluções tecnológicas em processos eleitorais em Angola.
“Essa empresa tem histórico negativo. Se não sabem, a Indra foi investigada por pagar comissões a pessoas para ficar à frente de eleições em Angola. Mas, mesmo assim, insistem em trabalhar com ela”, lê-se numa das mensagens.
Mas será verdade que a Indra foi investigada em Espanha por alegado pagamento de comissões relacionadas com processos eleitorais em Angola?
Sim. A informação é verdadeira, embora com enquadramento.
A Indra, participada parcialmente pelo Estado espanhol através da SEPI (Sociedad Estatal de Participaciones Industriales), foi investigada em 2018 pela Agência Tributária espanhola (AEAT) por suspeitas relacionadas com o pagamento de comissões no contexto do processo eleitoral angolano de 2012, segundo o jornal El Confidencial.
De acordo com a investigação jornalística, a empresa terá inflacionado em cerca de 9,8 milhões de euros o custo do fretamento de 14 aviões que transportaram material eleitoral para Angola, valor que, alegadamente, teria sido utilizado para o pagamento de subornos, segundo uma fonte interna citada pelo jornal.
A AEAT investigou esses montantes, que terão sido canalizados através da empresa britânica Kessler Consultants Limited. No final, a inspecção fiscal concluiu que o montante considerado indevido ascendia a 2,4 milhões de euros. O caso foi encerrado em Maio de 2018, após notificação oficial à Indra.
A empresa não admitiu o pagamento de comissões ilegais, mas reconheceu que uma investigação interna, concluída em 2017, identificou “deficiências de gestão” na contratação da Kessler. Na sequência desse processo, a Indra demitiu Jesús Gil Ortega, responsável pela área de Processos Eleitorais.
A multinacional reiterou que não pagou comissões ilegais, embora tenha confirmado que a Agência Tributária espanhola realizou uma auditoria fiscal entre 2015 e 2018, abrangendo os exercícios de 2011 a 2014. Essa auditoria incluiu a análise de contratos com a Kessler Consultants, celebrados em 2012, relacionados com o transporte de material eleitoral para Angola.
Importa ainda referir que a Indra já assegurou a componente tecnológica de vários processos eleitorais em Angola. Entre 2008 e 2017, a empresa arrecadou mais de 420 milhões de euros em contratos com a CNE, segundo o El Confidencial. A empresa foi igualmente responsável pela tecnologia das eleições de 2022, vencidas pelo MPLA, partido no poder há cinco décadas.
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Avaliação do Polígrafo África:




