“Importa recordar que o primeiro contacto oficial entre a Santa Sé e esta região de África [Angola] remonta ao século XVII, quando o Príncipe António Manuel Nsako Ne Vunda, mais conhecido por ‘Negrita’, se deslocou de Mbanza Congo, então capital do Reino do Congo, até Roma, por incumbência do seu Rei, para encetar uma diligência diplomática junto da Santa Sé”, sublinhou o Presidente João Lourenço na recepção ao Santo Padre, que, entretanto, deixou o país nesta terça-feira (21), depois de uma visita de quatro dias a Angola.
O Chefe de Estado lembrou ainda que esta é a terceira visita de um Sumo Pontífice ao país, considerando o facto como o “reflexo das relações construtivas que a República de Angola e a Santa Sé mantêm há décadas e que sinalizam mais um passo no reforço do diálogo e das bases sobre as quais assenta o grande papel social da Igreja Católica”.
João Lourenço, cujo Executivo tem sido alvo de críticas de cariz social por parte da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) – a conferência dos bispos católicos, disse ao Papa que gostaria de “poder contar com um envolvimento mais construtivo da Igreja Católica na condição de parceira social do Estado“, para juntos trabalharem no “propósito de alcançar o progresso e o desenvolvimento económico e social” do país.
“Catolicismo tem uma grande expressão, que se reflecte no grande número de crentes e na sua grande expansão pelo território nacional”, lembrou Lourenço, acrescentando que Angola é um país laico, com “uma grande diversidade de religiões, que convivem entre si pacificamente (…)”.
Mas será verdade que a relação entre os povos de Angola e o Vaticano remonta ao século XVII, como disse João Lourenço?
Os dados históricos indicam que sim, sendo que o primeiro contacto foi estabelecido por Dom Nsaku Ne Nvunda, que ficou conhecido como Dom António Negrita. Ne Vunda foi um nobre, político e diplomata do Reino do Congo, que se deslocou a Roma por orientação do seu rei Mpangu-a-Nimi Lukeni Iua Mvemba, conhecido como Dom Álvaro II, no século XVII.
De acordo com o livro intitulado “Negrita – Uma vida inteira por amor de África”, a escritora angolana Ondina Coelho refere que a missão de Ne Vunda, ocorrida em 1604, tinha como objectivo não só estabelecer relações entre o Reino do Congo e o Vaticano, mas também denunciar ao Papa Paulo V o comportamento egoísta e expansionista de Portugal, que marcava o início do período brutal do comércio de escravos.
No Vaticano, Negrita é considerado o pioneiro da diplomacia africana junto da Santa Sé, onde foi sepultado, precisamente na Basílica de Santa Maria Maior, ao lado de papas e de ilustres personalidades.
_____________________________________
Avaliação do Polígrafo África:



