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Confirma-se que, antes de ter sido afastado da direcção do MPLA, João Lourenço havia manifestado a intenção de liderar o partido, como disse Serra Bango?

Política
O que está em causa?
Em debate na Rádio Essencial, o jurista e presidente da Associação Justiça, Paz e Democracia (AJPD), Serra Bango, rejeitou a existência de uma vontade genuína por parte do Presidente João Lourenço em promover um congresso democraticamente aberto. Sublinhou que os vícios nos conclaves têm sido uma prática antiga entre os camaradas e reforçou essa perspectiva ao referir que o próprio João Lourenço chegou a ser afastado e impedido de participar num congresso do partido, depois de ter manifestado a intenção de liderar a organização. Será isso mesmo que aconteceu?

Os vícios nos congressos do MPLA não vêm de agora (…). Depois de 91 [1991], os congressos foram sempre tomados por vícios. Lembro-me do chamado congresso da batota, em que o secretário-geral, Marcolino Moco, Lopo do Nascimento, putativos candidatos ou que tinham posicionamentos contrários, foram simplesmente afastados do Comité Central exactamente para que não pudessem concorrer. Temos o caso do próprio actual Presidente João Lourenço, que na altura, foi condicionada a sua participação no congresso, para que não concorresse quando já tinha manifestado interesse [de candidatar-se]. Portanto, temos aqui um partido que traz vícios de há bastante tempo, e que não vai mudar agora”, disse Serra Bango.

Importa sublinhar que, na semana passada, a Subcomissão de Candidaturas do 9.º Congresso Ordinário do MPLA, aprazado para os dias 9 e 10 de Dezembro deste ano, anunciou que o período para a apresentação de candidaturas a presidente do partido deverá estender-se até ao mês de Outubro e que nenhuma candidatura foi apresentada até àquele momento.

Portanto, apesar dessa demonstração de alegada transparência, Serra Bango considerou que o facto “não resulta de uma vontade genuína do Presidente, mas da pressão que ele (Presidente) sofre, quer internamente, quer externamente”

Para o académico, o objectivo do líder do MPLA é evitar uma responsabilização exclusiva face ao que chamou de “estragos que virão em 2027”.

Mas será verdade que João Lourenço havia manifestado a intenção de liderar o MPLA antes do seu afastamento da direcção, no período de José Eduardo dos Santos?

Vale, antes, referir que o processo de afastamento de João Lourenço se deu no Congresso de 2003, altura em que desempenhava o cargo de secretário-geral do partido.

De acordo com os dados disponíveis, o seu afastamento, ocorrido numa altura em que se cogitava que desse voos mais altos, não resultou de uma alegada manifestação de desejo de se candidatar a presidente do MPLA, mas ocorreu num contexto em que concedeu uma entrevista que acabou por gerar interpretações diversas.

Tudo aconteceu quando, numa reunião do Comité Central, em Agosto de 2001, José Eduardo dos Santos, então na qualidade de líder do partido e Presidente da República, sublinhou o seguinte: “Quer as eleições se realizem em 2002 ou 2003, teremos um ano e meio ou dois anos e meio para que o partido possa preparar o seu candidato para a batalha eleitoral – e é claro que esse candidato não se vai chamar José Eduardo dos Santos (JES)”.

Algum tempo depois de JES ter proferido essas declarações, João Lourenço, então na qualidade de secretário-geral do MPLA, concedeu uma entrevista ao jornal “A Capital”, na qual, face à indefinição que ainda se verificava quanto ao futuro da liderança do partido, lhe foi colocada a seguinte questão: “de uma vez por todas: José Eduardo dos Santos será ou não o candidato do MPLA nas futuras eleições presidenciais?”, ao que respondeu que cabia à sociedade fazer as suas análises e acrescentou que o “Presidente dos Santos é muito conhecido do povo angolano e o povo tem uma opinião sobre ele, se é um Presidente sério ou se não. Nós, enquanto MPLA, pensamos que é sério. E sendo sério que vai honrar a sua palavra”.

Entretanto, à época, a posição de João Lourenço foi vista como uma forma de forçar José Eduardo dos Santos a abdicar do cadeirão máximo do partido e do país, e não como uma manifestação clara da intenção de se candidatar a Presidente.

Face aos dados que contrariam as afirmações de Serra Bango, o Polígrafo África contactou o académico, tendo o mesmo referido que as suas declarações resultam de uma “interpretação tendo em conta o contexto” em que os factos se desenrolaram.

“Ele [João Lourenço] era o secretário-geral. Era uma pessoa bem colocada. Um secretário-geral quando põe em causa, está a dizer que se vai sair, eu também quero. Uma interpretação tendo em conta o contexto. Em termos de posição no partido, depois de José Eduardo dos Santos, a pessoa mais importante era o secretário-geral, ele coordenava e orientava, estando o presidente de saída, era o mais bem posicionado, e foi afastado na sequência [das declarações] da entrevista”, referiu Serra Bango.

Perante os factos, aplica-se o selo de falso, uma vez que, objectivamente, não há registos que provem que João Lourenço tenha manifestado a intenção de se candidatar. Trata-se, na verdade, de uma interpretação, tal como o próprio jurista reconheceu.

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Avaliação do Polígrafo África

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