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Crise na UNITA. Grupo de Reflexão não levou partido a tribunal, ao contrário de militantes ligados ao Movimento de Resgate?

Política
O que está em causa?
A UNITA, desde que iniciou o processo de Congresso com múltiplas candidaturas à Presidência do partido, tem-se debatido com divergências internas que, por vezes, originam grupos antagónicos capazes de “beliscar” a imagem da organização. Nas redes sociais circula a alegação de que o chamado “Grupo de Reflexão” teria sido menos nocivo para o partido do que o “Movimento de Resgate” por, alegadamente, nunca ter recorrido aos tribunais para contestar decisões internas. Será verdade?

Uma das mensagens que circula nos grupos de WhatsApp afirma: “Depois do estrondo provocado pelos parlamentares que ficaram conhecidos como os ’16 deputados malditos’, a UNITA, entre 2010 e 2011, voltou a ver a sua autoridade democrática questionada por um punhado de militantes autodenominados ‘Grupo de Reflexão’, que pressionaram o Presidente Samakuva a convocar o congresso de 2011, além de o acusarem de ditador”.

Esse grupo, aponta a mensagem, “embora contundente na defesa das suas posições, não confiou nos tribunais do regime para condenar o partido. Foi menos penoso para a UNITA. Já os quadros que compõem o chamado ‘Movimento de Resgate’, movidos pela ira contra Adalberto Costa Júnior, estão a desgraçar o partido. Adalberto não é o partido; um dia deixará a liderança, tal como Isaías Samakuva também deixou.”

Esta narrativa surge num momento em que a UNITA se encontra em plena campanha eleitoral interna para eleger o próximo Presidente, processo cuja transparência tem sido questionada por militantes no activo, suspensos, expulsos e também por observadores externos.

O analista político e dirigente do PRA-JA, Lindo Bernardo Tito, levantou, por exemplo, suspeitas de manipulação e compra de delegados ao congresso da UNITA, durante o programa Revista Zimbo, da TV Zimbo, em Outubro último.

No mesmo período, Sabino Sakutala Kalusase, antigo inspector-geral da UNITA durante a liderança de Isaías Samakuva e apontado como integrante do denominado “Movimento de Resgate”, ala crítica a Adalberto Costa Júnior, manifestou repúdio relativamente ao modo como está a ser conduzido o processo de escolha dos delegados, alegando que a sua família foi excluída.

O “Movimento de Resgate” é uma corrente interna composta por militantes no activo, suspensos e expulsos por alegadas violações estatutárias. Contesta publicamente a liderança de Adalberto Costa Júnior, reivindica a reintegração de quadros afastados e defende o eventual regresso de Isaías Samakuva à presidência do partido.

Mas será verdade que o “Grupo de Reflexão”, anterior ao “Movimento de Resgate”, nunca levou a UNITA a tribunal?

O “Grupo de Reflexão” foi criado entre 2010 e 2011. Diferentemente do actual Movimento de Resgate, visto por alguns como uma corrente de oposição interna permanente, o grupo defendia a substituição de Isaías Samakuva por Abel Chivukuvuku na liderança da UNITA e pressionava a convocação do XI Congresso Ordinário previsto estatutariamente para 2011. Segundo os seus membros, Samakuva estaria a tentar adiar o conclave.

Apesar de Abel Chivukuvuku, actual líder do PRA-JA, ter rejeitado qualquer ligação ao grupo, acabou suspenso da UNITA por 45 dias, juntamente com Carlos Morgado (antigo médico de Jonas Savimbi), Lukamba Gato e Rafael Aguiar.

Com a realização do congresso, no qual Samakuva foi reeleito com 85,6% dos votos, contra 11% do seu adversário José Pedro Cachiungo, o “Grupo de Reflexão” dissolveu-se. Muitos dos seus membros aderiram posteriormente à CASA-CE, fundada por Chivukuvuku em Abril de 2012.

Ao Polígrafo África, o actual secretário para a Comunicação e Imagem da UNITA, Evaldo Evangelista, confirma que o Grupo de Reflexão nunca moveu qualquer acção judicial contra o partido, sublinhando que as suas teses foram discutidas exclusivamente no âmbito interno.

“O Grupo de Reflexão foi um movimento interno dos mais velhos, que, a determinado momento, entendeu lançar uma reflexão profunda sobre o partido, mas em nenhum momento levou o assunto às instituições fora do partido”, recorda Evaldo Evangelista.

Ao contrário do Grupo de Reflexão, alguns quadros associados ao Movimento de Resgate decidiram recorrer aos tribunais, após concluírem que Adalberto Costa Júnior detinha, em 2019, outra nacionalidade além da angolana quando concorreu à liderança da UNITA.

Com base nas provas apresentadas, o Tribunal Constitucional anulou o congresso de 2019, em 2021, revertendo a estrutura dirigente para a de 2015, com Isaías Samakuva como Presidente. Contrariando previsões de vários observadores, a UNITA não recorreu da decisão e optou por repetir o congresso em Dezembro desse mesmo ano. Adalberto Costa Júnior concorreu sozinho e foi eleito com 96% dos votos.

Actualmente, perante alegadas irregularidades divulgadas nas redes sociais relativamente ao congresso marcado para os dias 28, 29 e 30 deste mês, membros ligados ao Movimento de Resgate já admitem impugnar novamente o processo junto do Tribunal Constitucional.

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Avaliação do Polígrafo África:

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