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Desinformação: um desafio para os “media” tradicionais que ameaça a paz social na Guiné-Bissau

Sociedade
Este artigo tem mais de um ano
O que está em causa?
Em conversa com o Polígrafo África sobre o fenómeno da desinformação na Guiné-Bissau, o jornalista Diamantino Domingos Lopes salienta que está "sistematicamente presente", a par do discurso de ódio, "na comunicação dos actores políticos e seus apoiantes". E que "estes fenómenos conseguem até influenciar a comunidade religiosa".
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A desinformação é um desafio que os profissionais da comunicação social guineense enfrentam diariamente, sobretudo com a popularização das redes sociais (Facebook, WhatsApp, etc.) que são mecanismos de disseminação de informação mais rápidos e mais utilizados pelos guineenses – mesmos os iletrados – para espalhar informações falsas. Constituem desta forma um handicap para os órgãos de comunicação social tradicionais que têm de trabalhar constantemente na verificação das informações manipuladas e distorcidas. 

Na opinião do jornalista e professor universitário, Diamantino Domingos Lopes, o contexto político vigente na Guiné-Bissau proporciona condições adequadas para disseminar a desinformação e boatos. Acrescenta, neste particular, que a desinformação e o discurso de ódio estão presentes sistematicamente na comunicação dos actores políticos e seus apoiantes. E que “estes fenómenos conseguem até influenciar a comunidade religiosa”.

“Posso citar o caso Mabatonha como exemplo. Recentemente vimos palavrões contra a comunidade muçulmana numa das paredes. O facto indignou alguns grupos muçulmanos e suas lideranças, alguns proferiram ameaças de uma guerra religiosa. Este é apenas um dos exemplos de vários casos de desinformação promovidos pelo sector político”, disse o também sociólogo.

Em conversa com o Polígrafo África sobre os desafios de desinformação enfrentados pelos profissionais de comunicação social, Domingos Lopes explicou que se regista com maior frequência nas redes sociais desinformações promovidas por pessoas e grupos mal-intencionados.

Contudo, lamentou o facto de as redes sociais serem utilizadas hoje como a principal fonte de informação e da propagação de informações falsas. Enfatizou que atualmente, na Guiné-Bissau, os órgãos de comunicação têm as suas páginas nas redes sociais atcualizadas e com muita audiência, criticando que as referidas páginas seja utilizadas em várias ocasiões para desinformar a sociedade.

O professor universitário que também é secretário-geral do Sindicato de Jornalistas e Técnicos de Comunicação Social da Guiné-Bissau admitiu que há situações em que os próprios jornalistas são apanhados desprevenidos e ajudam, sem querer, na disseminação de desinformações e boatos. Dando então credibilidade a uma falsa informação que pode comprometer a vida das pessoas, de grupos, das famílias e outras instituições, nomeadamente dos sectores político e empresarial.

“Por estas e mais outras razões é fundamental formar e capacitar constantemente os jornalistas para estarem preparados para enfrentar estes desafios com rigor, objectividade, pluralidade e verificação dos factos. Ou seja, facultar aos jornalistas competências técnicas para abordar os factos jornalísticos com padrões éticos, deontológicos e morais”, notou.

Sobre os casos de desinformação que se tornaram virais no país, Domingos Lopes lembrou o caso de espancamento de um cidadão nigeriano até a morte, acusado de tráfico de órgãos humanos em 2013, sublinhando que o referido caso foi fomentado pela imprensa, especificamente por uma das rádios da capital Bissau. 

“A sociedade guineense foi mobilizada instantaneamente a sair às ruas pelos apresentadores de um dos programas de uma das rádios da capital que estavam a relatar o acontecimento como se fosse jogo de futebol, sem se preocupar com a verificação da informação, se correspondia ou não à verdade. Foi uma estratégia da desinformação arquitectada no campo político e disseminada pelos ‘media’ e o mais incrível é que foi uma das maiores rádios do país que fomentou esta informação falsa. Ouvimos a jornalista a afirmar em antena que uma criança foi vista sem órgãos nas bolanhas do Bairro de Antula e outra noutro bairro, imputando a responsabilidade do crime aos cidadãos nigerianos”, descreveu.

Essa informação difundida na rádio criou uma revolta na população que se mobilizou instantaneamente para invadir as casas e lojas dos cidadãos nigerianos em Bissau e noutras regiões, acabando na morte de um cidadão nigeriano por espancamento.

Domingos Lopes informou que ao nível do SINJOTECS organizaram várias formações sobre verificação dos factos no sentido de capacitar os jornalistas para lidarem com o fenómeno de desinformação. Aliás, decidiram até criar uma equipa de verificadores de informação – em que cada um pode ganhar 15.000 FCFA, aproximadamente 20 dólares norte-americanos, pela detecção de “fake news” nas redes sociais ou nos órgãos de comunicação social.

Lamentou ainda o facto de ninguém ter apoiado o projecto, considerando que “somos mais de alimentar os boatos e desinformação, portanto perdemos esta oportunidade de financiamento devido à ausência de engajamento dos profissionais desse setor”.

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