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É verdade que Angola tem 2.400 milionários, como disse Venâncio Mondlane?

Economia
O que está em causa?
O político moçambicano Venâncio Mondlane declarou, num vídeo amplamente partilhado nas redes sociais, que Angola tem actualmente 2.400 milionários em dólares norte-americanos, apesar dos elevados índices de pobreza registados nas estatísticas oficiais. O número indicado tem fundamento?
© Agência Lusa / Luísa Nhantumbo

No vídeo amplamente partilhado, Mondlane — tido em 2024 como o “rosto da maior insurgência popular em Moçambique dos últimos 50 anos” — manifesta indignação perante os níveis de pobreza em Angola, que descreve como um “país irmão”, e lamenta que, não obstante essa realidade, o país figure alegadamente na 11.ª posição entre as nações africanas com maior número de milionários em dólares.

“Com todos os indicadores de pobreza e miséria, Angola tem 2.400 indivíduos com fortunas acima de um milhão de dólares”, declarou Mondlane, acrescentando ainda que existem quatro angolanos com patrimónios acima dos 100 milhões de dólares, os chamados centimilionários.

Mas será mesmo assim?

Se considerarmos os dados mais recentes do Relatório sobre a Riqueza em África 2024, elaborado pela Henley & Partners — uma das mais prestigiadas consultoras internacionais em matéria de finanças, cidadania e residência — a afirmação de Venâncio Mondlane não corresponde à realidade actual.

Segundo esse relatório, Angola nem sequer figura entre os 10 países africanos com mais milionários. A lista termina com a Namíbia, que contabiliza 2.300 milionários e três centimilionários. A liderança pertence à África do Sul, com 37.400 milionários, 102 centimilionários e cinco bilionários.

Contactada pelo Polígrafo África, a Henley & Partners confirmou que, em 2024, Angola tem 2.250 milionários, seis centimilionários e nenhum bilionário.

Contudo, se recuarmos ao relatório do ano anterior, de 2023, a situação era diferente. Nesse ano, Angola surgiu com 2.400 milionários, superando países como a Costa do Marfim (2.200 milionários) e a própria Namíbia (2.100 milionários). Ou seja, Mondlane baseou-se em dados antigos.

O Relatório sobre a Riqueza em África também aponta que o crescimento de indivíduos com “alta renda e/ou activos significativos” em Angola foi fraco na última década (2014-2024), tendo registado uma queda de 35%. As principais razões apontadas são a instabilidade económica e, sobretudo, a desvalorização acentuada do kwanza face ao dólar norte-americano. De acordo com dados do Banco Nacional de Angola, em 2014 um dólar equivalia a 102 kwanzas; actualmente, a mesma unidade vale 911 kwanzas.

Perante os factos apurados, classificamos as declarações de Venâncio Mondlane com o selo de “Falso, mas…“, porque os números que evoca não correspondem aos mais recentes, do relatório de 2024. Mas baseiam-se no relatório anterior, de 2023, e a diferença não é assim tão grande.

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Avaliação do Polígrafo África:

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