O primeiro jornal lusófono
de Fact-Checking

É verdade que “José Eduardo dos Santos deixou livremente [sem pressão]” a liderança do MPLA, como disse Mário Aragão?

Política
O que está em causa?
O jurista Mário Aragão, que em 2024 pretendeu concorrer à liderança da JMPLA, a agremiação juvenil do partido no poder em Angola, defendeu, em debate na Rádio Essencial, que o seu partido é das organizações mais democráticas do país, e contrariamente a quem entenda que José Eduardo dos Santos tenha sido forçado a "abortar o mandato", referiu que este Santos deixou "livremente a vida política".

“O Presidente José Eduardo dos Santos não foi obrigado a meter termo ao seu mandato no [MPLA]. Presidente José Eduardo dos Santos, em 2015, assumiu categoricamente que deveria pôr fim à sua vida política em 2017, e isso é público. Razão pela qual, em 2017, livremente, pôs fim à sua vida política”, defendeu Mário Aragão, em resposta ao politólogo David Sambongo, que destacou que José Eduardo dos Santos (já falecido) tinha sido “forçado a abortar o seu mandato (à frente do partido)”, visando pôr-se fim ao alegado constrangimento provocado pela então chamada bicefalia.

Ainda durante a sua intervenção, Mário Aragão sublinhou que a existência de múltiplas candidaturas que se têm registado nos conclaves de alguns partidos como à UNITA, por exemplo, não é necessariamente sinónimo de democraticidade interna, tendo assegurado que o seu MPLA é das organizações políticas “mais democráticas do país”.

Segundo o alto quadro da JMPLA, no exercício de democratização interna para a eleição do Presidente do partido, o MPLA tem optado pela aprovação de “moções de apoio ao líder”.

Mas será verdade que José Eduardo dos Santos deixou livremente [sem pressão] a liderança do MPLA em 2017?

Os registos históricos indicam que Mário Aragão foi pouco rigoroso em relação à matéria. A princípio, José Eduardo dos Santos, em 2016, discursando na abertura da 11.ª Reunião Ordinária do Comité Central do MPLA, fez saber que abandonaria a vida política activa em 2018, e não em 2017.

Entretanto, chegados ao ano anunciado, e a meio à narrativa de que a sua posição como Presidente do partido criava uma bicefalia que não permitia a João Lourenço, na qualidade de Chefe de Estado, exercer convenientemente o seu papel, alguns ‘mais velhos’ do partido, de acordo com vários órgãos de comunicação social (informação nunca desmentida), pediram a saída de José Eduardo dos Santos da liderança do partido.

Por exemplo, numa entrevista concedida ao Jornal de Angola, em Março de 2018, citada pela Voz da América, Santana André Pitra “Petroff”, primeiro comandante da Polícia Nacional de Angola no pós-independência, chegou a defender a transferência urgente da liderança do partido de José Eduardo dos Santos para João Lourenço.

Ciente das démarches de seus ‘camaradas’, José Eduardo dos Santos, que completava 39 anos à frente do MPLA, sugeriu, em Março de 2018, durante uma reunião do Comité Central, a realização do “congresso da transição” para Dezembro daquele ano ou para Abril de 2019. No entanto, como está registado neste vídeo, os seus partidários rejeitaram a proposta, tendo sido realizado em Setembro de 2018 o conclave que elegeu o seu substituto.

O Polígrafo África tentou, sem sucesso, contactar Mário Aragão.

__________________________________

Avaliação do Polígrafo África:

Partilhe este artigo
Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn

Relacionados

Em destaque