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É verdade que o Chefe do Estado-Maior das FAA é da UNITA, como afirmou o líder da RENAMO?

Política
O que está em causa?
Em recente entrevista, o presidente da RENAMO, principal partido da oposição em Moçambique, expressou desagrado com o processo de reconciliação nacional no seu país, comparando-o com a experiência angolana. Nesse contexto, Ossufo Momade disse que, em Angola, "o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas é um quadro oriundo da UNITA, o maior partido da oposição ao Governo do MPLA".
© Agência Lusa / Ampe Rogério

Ossufo Momade, cuja liderança é contestada por antigos guerrilheiros do seu próprio movimento, criticou o modelo de governação seguido pelo Presidente moçambicano, Daniel Chapo, e sublinhou a importância da estabilidade e da reconciliação nacional assente no respeito mútuo.

“Desde a criação do exército único em Moçambique (um dos elementos sine qua non para a reconciliação), os elementos militares da RENAMO são sempre colocados em cargos de adjuntos. Temos o exemplo claro de Angola: o Chefe do Estado-Maior é da UNITA. Porque é que isso nunca acontece no nosso país?”, questionou o líder da RENAMO, exigindo igualdade de tratamento entre oficiais das Forças Armadas, independentemente da sua filiação anterior à FRELIMO ou à RENAMO.

O dirigente voltou ainda a criticar a postura de Daniel Chapo relativamente ao Acordo Geral de Paz, assinado em Roma, em 1992. Momade contestou o facto de, em Julho deste ano, o Presidente moçambicano ter sugerido, perante oficiais militares, uma reflexão sobre a pertinência de manter o acordo que pôs fim à guerra civil.

Confirma-se que o Chefe do Estado-Maior das FAA é da UNITA?

As Forças Armadas Angolanas (FAA) foram criadas a 9 de Outubro de 1991, ao abrigo dos Acordos de Bicesse, que previam a extinção das antigas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), ligadas ao MPLA, e das Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA), então braço armado da UNITA. O objectivo, tal como em Moçambique, era formar um exército nacional único.

Desde então, apenas uma vez as FAA tiveram um Chefe do Estado-Maior General com origens na UNITA: o general Geraldo Sachipengo Nunda, nomeado para o cargo em 2010 pelo então Presidente da República, José Eduardo dos Santos (já falecido).

Importa, no entanto, clarificar que Nunda não chegou ao posto máximo das FAA através de um processo formal de integração da UNITA no exército único. O general militou na UNITA até 1993, ano em que se afastou voluntariamente do movimento e se colocou à disposição das forças governamentais, quando ainda decorria a guerra contra as FALA, a ala militar a que pertencera.

O registo histórico demonstra que nenhum oficial proveniente da UNITA, integrado nas FAA através do processo formal de unificação, chegou a Chefe do Estado-Maior General. A declaração de Ossufo Momade, portanto, não corresponde à realidade.

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Avaliação do Polígrafo África:

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