Em Angola, economistas consideram que a guerra pode representar uma janela de oportunidade económica, devido ao aumento do preço internacional do crude. Ainda assim, apelam ao Governo para uma gestão criteriosa dos eventuais ganhos, advertindo que, após os benefícios associados à subida do petróleo, poderá surgir um agravamento da inflação.
O actual conflito no Médio Oriente, para além das mortes e da destruição de infra-estruturas, está a provocar uma significativa interrupção das actividades comerciais, sobretudo na região. O encerramento de aeroportos, a paralisação de operações portuárias e a instabilidade nos mercados financeiros internacionais já se fazem sentir.
O Irão, que se apresenta como vítima de uma agressão alegadamente não provocada, tem intensificado ataques na região, bombardeando bases militares norte-americanas e zonas civis nos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Kuwait e Omã.
Angola juntou-se ao grupo de Estados que apelam à contenção e ao diálogo, através de uma declaração pública do Governo.
Apesar dos apelos internacionais, as partes envolvidas no conflito procuram, numa primeira fase, alcançar os seus objectivos militares. Entretanto, acumulam-se as vítimas e os danos materiais.
Em declarações ao Polígrafo África, o docente universitário e contabilista Hamilton Quintas afirma que o impacto da guerra deverá estender-se a várias nações, incluindo Angola. No entanto, considera que o país poderá, numa fase inicial, beneficiar do aumento do preço internacional do petróleo.
“No caso particular de Angola, enquanto país fortemente dependente das exportações de petróleo, poderá beneficiar, no curto prazo, de uma eventual subida do preço do barril nos mercados internacionais, motivada pela instabilidade no Médio Oriente. O aumento das cotações do crude tende a reforçar as receitas fiscais, melhorar as reservas cambiais e proporcionar maior folga orçamental ao Estado”, prevê.
Contudo, alerta que a escalada do conflito poderá igualmente “gerar maior volatilidade nos mercados financeiros internacionais, fortalecendo o dólar”, o que exercerá pressão sobre o kwanza, encarecendo as importações e contribuindo para o agravamento da inflação interna.
Entre os potenciais impactos negativos, Hamilton Quintas recorda que Angola “importa derivados refinados e diversos bens essenciais”. Assim, o prolongamento da guerra poderá provocar um aumento global dos preços da energia e dos custos logísticos, com reflexos no preço dos combustíveis, nos transportes e, consequentemente, no custo de vida das famílias e na estrutura de custos das empresas.
Também em declarações ao Polígrafo África, o economista e antigo ministro da Economia do Governo Sombra da UNITA, Nataniel Fortunato Fernandes, considera que a guerra é uma “desgraça” face às perdas humanas. Ainda assim, admite vantagens temporárias para Angola, que poderão reflectir-se no aumento do stock de divisas e das receitas fiscais.
O economista apela ao Executivo para que encare esses eventuais ganhos como conjunturais e não estruturais, defendendo uma gestão prudente.
Recorda que, no passado, o Governo chegou a aumentar salários na função pública na sequência da subida do preço do petróleo, mas enfrentou posteriormente dificuldades de tesouraria quando as cotações recuaram.
Assim, sugere que o Executivo opte por investir em áreas estratégicas, como a formação de capital humano, através da concessão de bolsas de estudo, a criação de institutos especializados de apoio à agricultura familiar e o reforço de sectores que dinamizem a indústria nacional.
Nataniel Fortunato Fernandes fundamenta os seus alertas com a constatação de que o prolongamento de guerras tende a provocar “perturbações nas cadeias globais de abastecimento, aumento dos custos de importação” e redução da previsibilidade comercial, além de afectar negativamente o ambiente de investimento.


