Apesar de ocorrerem em contextos distintos, as manifestações partilham um mesmo modus operandi: as plataformas digitais são o epicentro da mobilização. O movimento dos jovens ganhou força sobretudo no Facebook e no TikTok. Em comum, denunciam a falta de oportunidades económicas e a falência das promessas feitas por líderes eleitos.
A “fúria” dos jovens em África teve início no Quénia, em 2024. Em Junho desse ano, a Geração Z queniana saiu às ruas de Nairobi, capital do país, para protestar contra um projecto de lei fiscal que previa o aumento do custo de vida. Durante as manifestações, os jovens expressaram revolta face aos elevados níveis de corrupção, ao desemprego e ao peso da dívida pública, protestos que resultaram em dezenas de mortes. A pressão popular acabou por forçar o Presidente queniano, William Ruto, a recuar na implementação da nova tributação.
Em Setembro, foi a vez de Madagáscar assistirà mobilização da sua juventude. A Geração Z malgaxe protestou contra os recorrentes cortes de água e electricidade e contra alegados casos de corrupção, exigindo a demissão do Presidente Andry Rajoelina. As manifestações resultaram em vários mortos e centenas de feridos, segundo o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). A vaga de contestação acabou por levar Rajoelina a renunciar ao cargo e abandonar o país.
Mais recentemente, no Marrocos, os jovens da Geração Z manifestaram-se contra os gastos do Governo com a preparação do Campeonato do Mundo de 2030, que será organizado conjuntamente por Marrocos, Portugal e Espanha, exigindo uma maior aposta na saúde e na educação. De acordo com o Ministério do Interior marroquino, os protestos provocaram pelo menos três mortos e 354 feridos (28 civis e 326 membros das forças de segurança), além de mais de 400 detidos.
A estratégia digital da Geração Z tem-se revelado particularmente eficaz na mobilização de pessoas para os protestos. O uso intensivo das redes sociais permite aos manifestantes escapar à vigilância das forças de defesa e segurança, convocando protestos relâmpago e sem líderes identificáveis. Especialistas ouvidos pelo The New York Times sublinham que esta forma de organização torna o movimento mais difuso, mas também mais resistente, já que a ausência de figuras centrais dificulta a repressão e impede os governos de desarticularem as manifestações através de prisões seletivas.
A revolta da Geração Z, contudo, não começou em África. O fenómeno, apelidado por alguns analistas de “Primavera dos Novinhos”, já fez cair governos noutras partes do mundo. No Nepal, por exemplo, os jovens recorreram às redes sociais para denunciar o luxo dos políticos e a pobreza generalizada da população, o que culminou com a queda do Governo e a convocação de novas eleições legislativas.
Situações similares registaram-se na Indonésia, no Peru e nas Filipinas, onde a Geração Z saiu às ruas para protestar contra privilégios parlamentares, corrupção, aumento do custo de vida e criminalidade.


