A decisão de viajar por terra, de Varsóvia até Kyiv, foi mais do que uma imposição logística: representou um mergulho consciente na realidade de um país em guerra. Ao longo de quilómetros percorridos de miniautocarro, numa viagem que durou perto de 14 horas, o grupo de nove jornalistas de Angola, Brasil, Moçambique e São Tomé e Príncipe sentiu a tensão de quem sabe que cada paragem depende de alertas de segurança. As conversas, porém, transbordavam expectativa: todos vinham para ver, ouvir e, sobretudo, compreender.
Em Kyiv, as primeiras horas confirmaram o que já se pressentia: esta é uma guerra que se vive em cada “esquina”. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrii Sybiha, recebeu os jornalistas com a serenidade de quem tem urgência. “A nossa linha da frente hoje é a do direito internacional. O modo como esta guerra terminar determinará o destino de muitos povos no mundo”, afirmou, após uma noite em que drones russos violaram o espaço aéreo da Polónia.
Ao saber que o representante do Polígrafo África é angolano, Sybiha fez questão de manifestar satisfação pelo posicionamento de Angola “do lado da verdade”. Recordou que, em Outubro de 2022, o país votou na ONU a favor da resolução que condenou a Rússia pela anexação dos territórios ucranianos de Zaporizhia, Lugansk e Donetsk. Antes disso, em Setembro do mesmo ano, durante a sua cerimónia de investidura, o Presidente João Lourenço apelara à Rússia para pôr termo ao conflito militar.
O vice-ministro da Economia, Ihor Bezkrovainyi, trouxe números que pesam mais do que palavras: desde 2022, mais de 1.300 pessoas morreram vítimas de minas terrestres. Cada estatística tem rosto e história, como lembraram as famílias de ucranianos que estiveram em cativeiro russo e aceitaram partilhar testemunhos duros de sobrevivência.
As ruas de Bucha e Irpin, visitadas pelos jornalistas, transformam o horror em evidência. Edifícios antes queimados estão a ser reabilitados; casas com cicatrizes de balas e placas com nomes de desaparecidos contam a história sem precisar de voz. A guerra deixa marcas visíveis, mas também uma determinação que se sente no olhar de quem ficou. Em Lviv, essa resiliência revela-se no Centro Nacional de Reabilitação “Superhumans”, onde pacientes aprendem a caminhar novamente com próteses de última geração, e na juventude local, que organiza debates e concertos, mesmo quando as sirenes soam.
A viagem não foi feita apenas de tragédia ou de relatos de drones e mísseis. A quinta Cimeira das Primeiras-Damas e Primeiros-Cavalheiros, conduzida por Olena Zelenska e dedicada à educação, mostrou um país que insiste em pensar o futuro, mesmo em tempo de bombas. E, na Filarmónica de Luhansk, agora refugiada em Lviv, um concerto sinfónico ofereceu uma pausa breve, quase sagrada, lembrando que a cultura é também uma forma de resistência.
Durante a quinta Cimeira das Primeiras-Damas e Primeiros-Cavalheiros, o presidente Volodymyr Zelensky denunciou novos bombardeamentos russos, incluindo o ataque que, na madrugada de 7 de Setembro, atingiu o telhado e os andares superiores da sede do Governo em Kyiv, edifício visitado pelos jornalistas, bem como a incursão de mais de uma dezena de drones russos abatidos pela Polónia a 10 de Setembro, após violarem o espaço aéreo de um país da NATO.
Para os jornalistas lusófonos, a missão teve também outro propósito: construir pontes entre continentes. O português é falado por mais de 250 milhões de pessoas, na Europa, África, América do Sul e Ásia, e a Ucrânia vê nessa comunidade um aliado na batalha contra a desinformação. “É um público global que precisa de informação verdadeira sobre a guerra e o caminho para uma paz justa”, sublinhou Sybiha.
Regressar a Varsóvia, dias depois, foi mais do que atravessar uma fronteira. Foi levar na bagagem a certeza de que a Ucrânia não luta apenas pelo seu território, mas pelo direito de todos a viver sem medo. Na quietude da estrada, cada quilómetro parecia lembrar que, enquanto o céu permanecer fechado, a verdade tem de continuar a viajar por terra e pelas palavras de quem a testemunha.




