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O nome da capital da província do Namibe homenageia um dos maiores traficantes de escravos da História?

Política
O que está em causa?
Participando no programa “Tardes da Kianda”, da Rádio Correio da Kianda, dedicado ao tema “A colonização do pensamento e a falta de identidade do povo angolano”, o historiador e docente universitário Henriques Nkawu Pedro manifestou a sua insatisfação com a manutenção de determinados topónimos de ruas, edifícios e cidades. Na ocasião, sublinhou que o nome atribuído à capital da província do Namibe foi uma homenagem a um governante português conhecido pelas suas acções em prol do tráfico de escravos angolanos. Confirma-se?
DR

“Nós temos mulheres, na história angolana, que, em momentos difíceis, marcaram as nossas sociedades. Refiro-me a Lweji A’Nkonde; Ñsîmba Vita, que, para muitos, é Kimpa Vita; e à Rainha Nzinga Mbande, que fizeram tanto, mas que, infelizmente, se olharmos para os nomes das províncias, das cidades ou dos edifícios (…), olhamos para o Tribunal Dona Ana Joaquina [que é uma homenagem a uma senhora que] foi praticamente uma prostituta e, por sinal, facilitadora e vendedora de escravos, mas decidimos fazer-lhe uma homenagem. Olhamos para a cidade de São Paulo [em Luanda], que é também uma homenagem a um assassino, que matou tantos dos nossos compatriotas; olhamos para a cidade de Moçâmedes, e é muito ofensivo atribuirmos o nome de uma cidade como Moçâmedes a uma pessoa que nem sequer pisou o território da província do Namibe, não conheceu o Namibe e, para além disso, também foi traficante. Mas estamos a dar o nome de uma cidade a alguém que fez tanto mal aos nossos antepassados”, referiu, manifestando a sua insatisfação, o historiador Henriques Nkawu Pedro.

O docente universitário, que aproveitou a oportunidade para apelar à criação de um plano curricular que introduza referências angolanas, lamentou o facto de os estudantes da 7.ª classe continuarem a aprender, quase exclusivamente, sobre as civilizações antigas, como a Grécia e a Fenícia; na 8.ª classe, sobre as expedições navais; e, na 9.ª classe, sobre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais.

Mas será verdade que o nome atribuído à capital da província do Namibe constitui uma homenagem a um dos maiores promotores do tráfico de escravos?

Os dados históricos indicam que sim. A localidade, inicialmente uma aldeia de pescadores, pastores e caçadores, chamou-se, em tempos, Chitoto Chobatua, tendo a sua toponímia sido alterada para Mossungo-Bitoto, em 1485. Posteriormente, em 1645, o nome voltou a ser alterado para Angra dos Negros.

Foi apenas em 1785, durante uma expedição liderada por José de Almeida Vasconcelos de Soveral e Carvalho, então administrador colonial português, que exerceu os cargos de governador e capitão-general da Capitania-Geral do Reino de Angola entre 1784 e 1790, que a localidade passou a designar-se Mossâmedes.

Os registos históricos indicam que a decisão da nova toponímia partiu do então tenente-coronel Eusébio Pinheiro Furtado, em homenagem ao responsável pela expedição, José de Almeida Vasconcelos, que viria a receber o título de Barão de Mossâmedes.

De acordo com vários escritos, entre os quais os do jornalista e professor Ismael Mateus (já falecido), José de Almeida Vasconcelos chegou a Angola em 1784 e tinha entre as suas prioridades restabelecer o controlo metropolitano sobre o comércio de escravos e as receitas aduaneiras daí resultantes, actividade que estava então a ser dominada por comerciantes estabelecidos no Brasil.

Durante o período da sua governação, escreveu o antigo membro do Conselho da República, Ismael Mateus, “o tráfico de escravos atingiu níveis recorde na colónia”, tendo sido também sob o seu comando que “foram organizadas grandes feiras no interior de Angola para o comércio de bens e pessoas”.

Ao que tudo indica, o Barão de Mossâmedes foi uma das figuras mais influentes no comércio de escravos angolanos entre Angola e o Brasil.

Nova mudança de nome

Alguns anos após a proclamação da independência de Angola, mais concretamente em 1985, as autoridades alteraram a toponímia da cidade, que passou a designar-se Namibe. Contudo, 31 anos depois, o Governo, pressionado por alguns representantes do poder tradicional e por membros da sociedade civil, voltou a rebaptizar a cidade como Moçâmedes.

Se, por um lado, houve forte pressão para recuperar a antiga designação, por outro, após a sua reposição, várias vozes insurgiram-se contra a decisão, tendo sido publicados diversos artigos de opinião que criticavam duramente a medida.

Num dos textos publicados no Novo Jornal, um articulista afirmou que a decisão lhe fazia recordar a mudança do nome de Novo Redondo para Ngunza, em homenagem ao soberano da região que, segundo o autor, em vez de defender os interesses dos seus súbditos, se teria tornado num dos maiores “colaboracionistas” da força colonizadora.

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Avaliação do Polígrafo África

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