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Proposta do OGE 2026. Despesa do Governo com viagens é 23 vezes superior à folha salarial do Ministério da Educação

Política
O que está em causa?
A proposta do Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2026 revela que o Governo prevê gastar 177,9 mil milhões de kwanzas apenas em viagens e transportação, um valor 23 vezes superior à verba destinada ao pagamento dos salários dos professores e de todos os quadros do Ministério da Educação (MED), que totaliza 7,5 mil milhões de kwanzas.

Numa altura em que os professores angolanos ponderam convocar uma greve nacional por alegado incumprimento dos acordos firmados com o Executivo, o volume de recursos destinados às deslocações oficiais deverá reforçar as críticas quanto às prioridades orçamentais do Governo, sobretudo num contexto de “aperto” das finanças públicas.

De acordo com a análise do Polígrafo África à proposta do OGE 2026, os encargos com “viagens em serviço e transportação” registam um aumento de 25,5% face ao orçamento em execução, que previa 141,7 mil milhões Kz (equivalentes a 153,7 milhões de dólares). Assim, o montante projectado para o próximo exercício, 177,9 mil milhões Kz (193 milhões USD), supera amplamente a despesa com pessoal do MED.

 

A disparidade é evidente quando se observam as principais rubricas que compõem as despesas de viagens — bilhetes de passagem, subsídios de deslocação e serviços de transportação de pessoas e bens —, todas elas superiores à totalidade da verba prevista para o pagamento dos salários do Ministério da Educação.

Por exemplo, a dotação para aquisição de bilhetes de passagem, fixada em 50,8 mil milhões Kz (55,1 milhões USD), é seis vezes superior ao valor reservado à folha salarial do MED. Já os subsídios de deslocação, com 63,2 mil milhões Kz (68,6 milhões USD), representam uma despesa oito vezes mais elevada do que o orçamento destinado aos salários dos funcionários do sector liderado por Luísa Grilo.

Viagens e transportação: Governo promete cortes, mas a despesa cresce ano após ano

Nos últimos anos, o Executivo tem reiterado, nos Relatórios de Fundamentação do OGE, a intenção de reduzir as “gorduras” orçamentais relacionadas com viagens oficiais. Entre as medidas anunciadas contam-se a redução das classes de viagem, de primeira para executiva no caso dos titulares de cargos políticos, magistrados, deputados e respectivos cônjuges, e de executiva para económica no caso dos dirigentes e chefias, bem como a limitação do número e dimensão das delegações oficiais ao exterior, priorizando apenas as deslocações “efectivamente fundamentais”.

Contudo, a prática tem demonstrado o contrário. As despesas com viagens têm vindo a crescer de forma consistente. Em 2024, o Governo propôs 116 mil milhões Kz para esta rubrica, mais 25% do que em 2023, embora a Assembleia Nacional tenha reduzido o montante para 83 mil milhões Kz aquando da aprovação do orçamento.

Mesmo assim, segundo dados citados pelo jornal Expansão, o Relatório de Execução do OGE 2024 mostra que o Governo acabou por  gastar mais do que o valor inicialmente proposto e aprovado, revelando uma tendência de expansão contínua das despesas com viagens, apesar dos reiterados compromissos de contenção.

 

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