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Três mentiras de Donald Trump na conferência sobre o ataque à Venezuela

Internacional
O que está em causa?
Oito guerras e "um quarto" resolvidas, 25.000 pessoas salvas de "overdose" de estupefacientes por cada embarcação destruída no Mar das Caraíbas, "gangues selvagens e assassinos" mandados por Maduro para aterrorizar os norte-americanos. Logo após a captura do Presidente da Venezuela, o líder dos EUA protagonizou ontem uma conferência de imprensa na sua residência em Mar-a-Lago, Flórida, em que proferiu várias alegações sem fundamento. Destacamos três exemplos.
@EPA

“Cada embarcação [com droga rumo aos EUA] mata, em média, 25.000 pessoas”

É uma alegação que Donald Trump já tinha proferido anteriormente, como forma de justificar os vários ataques militares dos EUA contra embarcações (supostamente dedicadas ao narcotráfico) junto à costa da Venezuela, ao longo dos últimos meses. Voltou a repeti-la ontem (3 de Janeiro), apresentada então como um dos motivos para a operação militar em território venezuelano que resultou na captura de Nicolás Maduro.

A lógica de Trump consiste em que por cada embarcação destruída ou apreendida terá salvo 25.000 vidas de norte-americanos que iriam consumir tais estupefacientes. O que implica diversos pressupostos sem fundamento, ou extrapolações sem sentido. Desde logo porque especialistas em narcotráfico já assinalaram que a Venezuela não é muito relevante nas rotas de estupefacientes para os EUA. Trata-se sobretudo de um ponto de passagem, estimando-se que apenas de uma reduzida percentagem e não dos estupefacientes que causam mais mortes em território norte-americano.

Por outro lado, os números evocados por Trump também não batem certo. Os EUA intercetaram 32 embarcações junto à Venezuela desde Setembro, em operações militares que provocaram a morte de 115 pessoas. Não há dados sobre o tipo de droga ou as respectivas quantidades que estariam a ser transportadas nesses barcos. De qualquer modo, pelas contas de Trump, a droga dos 32 barcos teria sido responsável pela morte de 800 mil pessoas nos EUA, onde foram registadas cerca de 73 mil mortes por overdose de estupefacientes entre maio de 2024 e abril de 2025.

“Maduro enviou gangues selvagens e assassinos, incluindo o sanguinário gangue prisional Tren de Aragua, para os EUA”

Ou mais especificamente, nas palavras exactas de Trump, “para aterrorizar as comunidades americanas em todo o país”. É mais uma alegação que já tinha proferido anteriormente e que não tem fundamento. Além de não existirem provas ou indícios da suposta responsabilidade de Maduro nesse “envio” de criminosos, o facto é que um relatório do National Intelligence Council dos EUA, divulgado em Abril de 2025, já tinha afastado tal hipótese, contrariando as sucessivas declarações do Presidente dos EUA sobre o assunto. Os especialistas refutaram também a ideia de que Maduro comandasse as operações do Tren de Aragua, muito menos em território norte-americano.

“Eu resolvi oito guerras e um quarto”

Não satisfeito com o “Prémio da Paz da FIFA” que já tem na prateleira, Trump continua a ambicionar o mais prestigiante “Prémio Nobel da Paz” e insiste na ideia de que, desde que tomou posse do segundo mandato como Presidente dos EUA, conseguiu terminar oito guerras até ao momento. Na sequência do ataque à Venezuela acrescentou mais “um quarto”, embora não se referisse à queda do regime de Maduro.

Como o próprio Trump explicou no seu discurso em Mar-a-Lago, “um quarto” corresponde ao conflito entre os vizinhos asiáticos Tailândia e Camboja que diz ter resolvido “em cerca de cinco horas”, mas depois “eles reacenderam” a guerra. Mas tal como o Polígrafo e vários outros jornais de verificação de factos já sinalizaram, não é verdade que Trump tenha resolvido ou terminado oito guerras nos últimos 12 meses. E mesmo onde teve uma intervenção relevante, como na guerra entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, não é certo que o cessar-fogo perdure no médio prazo.

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