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Enquanto Ventura brinca no recreio vamos pensar nos próximos 50 anos?

Seria desejável que quem vier a liderar o MPLA compreenda algo simples: Angola ganha mais quando aposta numa diplomacia económica aberta, numa cooperação pragmática com parceiros históricos e numa relação equilibrada com países como Portugal. A pergunta importante não é o que aconteceu há cinquenta anos. É outra: o que queremos construir juntos nos próximos cinquenta?

Há momentos em que a política insiste em discutir o passado como se o futuro não existisse. A presença do Presidente angolano, João Lourenço, em Lisboa para a tomada de posse do novo Presidente da República portuguesa, António José Seguro, devia ser vista por aquilo que é numa relação normal entre Estados: um gesto diplomático natural entre dois países que mantêm relações profundas há vários séculos.

Mas sempre que Angola entra no debate político português voltamos ao mesmo. O passado colonial. As feridas da história. As polémicas internas. Um desnorte político e ideológico que não aproveita a ninguém a não ser a André Ventura, que uma vez mais não desperdiçou uma ocasião perfeita para protagonizar mais uma infantilidade mediática, através da instalação de um outdoor nas imediações do Parlamento em que fustiga João Lourenço (e, pelo caminho, Lula da Silva).

Ao encenar as suas tropelias, Ventura esquece – ou pretende esquecer – algo: Angola tornou-se independente porque era justo que assim fosse. Esse capítulo está encerrado. Ou devia estar. O que interessa hoje é perceber a dimensão real da relação entre os dois países.

Os números falam por si: Portugal e Angola continuam a ser parceiros económicos relevantes, segundo dados do comércio internacional das Nações Unidas. No conjunto das trocas comerciais, o volume anual entre os dois países ronda cerca de 1,2 mil milhões de dólares (cerca de mil milhões de euros). Mais de 4.500 empresas portuguesas exportam regularmente para Angola e cerca de 1.200 empresas de origem portuguesa operam directamente no mercado angolano, em sectores que vão da construção à banca, passando pela saúde, energia, educação e serviços. 

Há empresas portuguesas que cresceram em Angola. Há empresas angolanas que investiram em Portugal. Há estudantes angolanos nas universidades portuguesas e milhares de portugueses a trabalhar em projectos angolanos.

Essa realidade concreta vale mais do que qualquer cartaz político. Quem olha para Angola apenas através das disputas da política interna portuguesa ignora uma evidência: Angola é hoje uma das economias mais relevantes de África e um actor regional cada vez mais importante.

E quem olha para Portugal apenas através das memórias coloniais ignora outra realidade: Portugal continua a ser uma porta estratégica para a Europa e para o espaço da língua portuguesa. A relação entre os dois países não precisa de romantismo ou de dramatização. Precisa de maturidade. Essa maturidade vai ser testada nos próximos anos também em Angola. O MPLA vai escolher ainda este ano um novo líder que, muito provavelmente, será o candidato do partido às eleições gerais de 2027. Esse momento será decisivo para o rumo político e económico do país.

Seria desejável que quem vier a liderar o MPLA compreenda algo simples: Angola ganha mais quando aposta numa diplomacia económica aberta, numa cooperação pragmática com parceiros históricos e numa relação equilibrada com países como Portugal.

Isso não significa esquecer a história. Significa apenas não ficar prisioneiro dela. A pergunta importante não é o que aconteceu há cinquenta anos. É outra: o que queremos construir juntos nos próximos cinquenta?

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