Foi vice-ministra da Educação no Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN). Olhando para o actual estado do ensino em Angola, que apreciação faz do sector?
É trágica. A apreciação é trágica, porque, infelizmente, o sector nunca esteve numa posição de conforto. Primeiro por causa da guerra, depois acabou a guerra, eram os recursos, foi a reconstrução, mas não vimos uma linha, um fio condutor nesta política social tão importante. Para mim, a política social é a mais importante para qualquer país que se queira desenvolver, tem o dever de olhar para ela a todo o momento.
A nível do país, qual é a sua maior preocupação neste momento?
A minha grande preocupação é com a educação da infância. Angola assinou os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável [da ONU]. Uma das coisas que assinou, ou com que concordou, foi que, por exemplo, as crianças dos três aos cinco anos, que é o ensino pré-escolar, a oferta deste serviço seria universal. Significa que 100% das crianças dos três aos cinco anos iriam ter um atendimento formal, institucional de aprendizagem, mas isso não aconteceu.
Temos 11% de crianças dos três aos cinco anos que frequentam escolas. A maioria frequenta escolas e creches privadas. A maioria da população não tem dinheiro para pagar. As creches são muito caras, ao contrário do ensino superior. O governo congelou as propinas no ensino superior, porque estamos a falar de uma camada da população que vota. Então, as propinas estão congeladas. O que se paga nas universidades é ridículo, sobretudo nas privadas, que têm imensos custos, não recebem dinheiro do Estado, o Estado não apoia. Mas, nas crianças, há creches aqui em Luanda que podem custar dois mil euros, mil e quinhentos euros, 400, 300, 600 euros. Portanto, quem é que pode pagar esse tipo de atendimento se tiver dois ou três filhos? Quantas pessoas optam por deixar os filhos em casa com alguém que tome conta, uma avó, ou alguém que trabalhe em casa e faça esse trabalho de babá?

“Se a criança não é estimulada e nutrida, o cérebro fica limitado”
Na verdade, são práticas adoptadas pelos pais e encarregados de educação que acabam por não ser as melhores para as crianças?
Mas o que é que isto tem de eficiente? Os estímulos da criança dos três aos cinco anos, em que ela deveria estar a estimular toda uma parte cognitiva que é extraordinariamente importante para o futuro, não estão a acontecer.
O cérebro exercita-se com leituras, com brincadeiras, com jogos didácticos. Portanto, a criança vai começando a despertar para a curiosidade. Depois temos um outro factor que é triste, é muito triste: quando uma criança, em qualquer parte do mundo, não come os nutrientes que devia comer dos zero aos cinco anos, e não é a Alexandra Simeão que diz, são os pediatras, é a ciência, as crianças ficam com a sua capacidade cognitiva restringida.
O que pode causar efeitos colaterais no futuro?
Isso é para sempre. Mesmo que depois fique rica e coma dez bifes por dia, da melhor carne, ou melhor peixe, como o cérebro também não foi alimentado no passado, porque o cérebro tem de ser exercitado, mas ao mesmo tempo tem de ser nutrido com determinado tipo de alimentação que permita essa nutrição.
Por isso é que, quando vamos a um pediatra, ele diz: olha, agora pode inserir o peixe, agora pode inserir a couve. E isso é vital para que a criança consiga chegar à escola primária e esteja em condições de receber, de compreender, de processar aquilo que eles estão a dizer. Isso não acontece.
Do seu ponto de vista, denota falta de interesse de quem governa em aplicar o que diz?
Isto já não é uma questão de falta de interesse. As políticas educativas, tal como as políticas de saúde, as políticas energéticas, as políticas de saneamento, são políticas de Estado. Portanto, não é a Alexandra que agora vai para ministra e decide que vai fazer assim, não. Tem de haver um conjunto de pressupostos onde foram ouvidos outros intervenientes, para que se possa construir um programa que seja de tal forma robusto que, inclusivamente, tenha a obrigatoriedade de prever onde é que eu, como Estado, quero que estas crianças estejam daqui a 20 anos, 25 anos.
Portanto, temos de capitalizar a orientação destas crianças também para o futuro.

“Os planos do Governo parecem bonitos, mas a execução falha”
Mas o Governo tem o Plano de Desenvolvimento Nacional. Parece-lhe que o que tem sido traçado dentro do plano não tem sido implementado?
Não olho todos os dias para o desenvolvimento do Plano de Desenvolvimento Nacional, mas acho que um cego, que me perdoem os cegos, consegue ver, porque sente a fome, sente a ausência de conforto. Portanto, ele não é atingido por nenhum tipo de salvaguarda dos seus direitos. Vai ao hospital, tem dificuldades, às vezes nem sequer tem acesso, ou porque não é na sua zona de residência, ou porque lhe é pedido algum dinheiro que, na verdade, não consegue pagar, apesar de o hospital ser público. Nas escolas, a mesma coisa.
Portanto, quando olhamos para os planos, há aqui uma dissonância muito grande entre aquilo que é a planificação e a execução.
Não há rigor?
Os planos até podem ser bonitos e olharmos para as coisas e dizermos: Deus queira que isto… ninguém está a amaldiçoar os planos. Os planos, em muitos casos, estão bonitos e são consequentes do ponto de vista do raciocínio, mas depois o que acontece é que a materialização não só não é efectiva, como também não é avaliada.
Neste momento, temos um sistema nacional de educação, vou referir-me apenas ao ensino primário, que não está a cumprir nenhum objectivo, porque os miúdos na escola primária pública, salvo meia dúzia, duas mãos e dois pés, prontos para contar, passam por uma classe sem ter adquirido as competências da classe anterior.
Que consequências teremos se este círculo se mantiver?
Se fazemos isto de forma repetida, o miúdo, quando chega à universidade, os poucos que conseguem chegar à universidade, tendo em conta a nossa taxa de natalidade, que é épica, crescemos cerca de 1,2 milhões de crianças por ano. Portanto, isto é assustador.
A construção das políticas do governo torna-se aritmética em função de uma natalidade que é geométrica. Ou seja, proponho-me a construir dez escolas, mas tenho lá dois mil alunos. Aquela escola já não dá.
Portanto, acho que provavelmente um demógrafo fazia sentido em todos os ministérios, porque a função da política é criar o bem-estar social, o desenvolvimento, o crescimento económico, mas atrás do crescimento económico tem de estar o desenvolvimento económico, atrás, à frente ou ao lado. Portanto, isso é extraordinariamente importante.
Fala-se da proliferação do negócio dos colégios, sobretudo em Luanda, tendo em conta a escassez de escolas públicas. Não lhe parece que o Governo deve assumir com maior rigor aquilo que é a sua obrigação no que toca à criação e garantia de escolas?
Em todo o mundo, acho que, à excepção de alguns países nórdicos, por exemplo, a Noruega, não há colégios privados. O filho do rei e o filho do mecânico, o filho da senhora que trabalha no supermercado, o filho do engenheiro e o filho do político vão todos à mesma escola. Portanto, isto é uma noção muito à frente do que os direitos têm de ser dados à nascença e têm de ser para todos.
Mas não há nenhum crime em haver escolas privadas. O crime é não haver escola pública suficiente que permita que 4 milhões de crianças fiquem todos os anos fora do sistema. E isso é que é mau, porque isto é a mesma coisa que dizer: já temos tantos cafés, a Alexandra vai montar um café. Qual é o problema de montar um café no meio de tantos cafés?

“Não há escolas públicas suficientes para todos os miúdos”
Estamos a falar de muitas crianças fora do sistema de ensino, quando é obrigação do Governo garantir esse serviço…
O problema aqui é que a escola pública é que tem de crescer, não é combater a escola privada. Se eu quiser meter o meu filho num colégio privado, qual é o problema? Em todo o mundo isso acontece, mas tenho opção. Se não tiver dinheiro, se não tiver condições, tenho opção para pôr na escola pública do meu bairro.
O edifício da Educação começa na escola primária. Portanto, se não tenho este edifício como sapata, como suporte de todo o edifício, o edifício para cima está cheio de rochas. E nós vemos isso quando falamos com pessoas que estão na décima, pessoas que estão na universidade, pessoas que tiraram cursos superiores, e o raciocínio lógico é perfeitamente opaco. Não entende o que lê. Decorou para dar uma resposta, ouviu alguém falar e repetiu. Não há ali um raciocínio construído.
Não quer dizer que eu tenha de construir um raciocínio para discordar. Eu até posso, no raciocínio, concordar com o seu, mas tenho de ter essa capacidade. As pessoas não leem, o livro é caro. A maioria da população, infelizmente, tem uma insuficiência de escolaridade. Temos muita gente analfabeta.
As bibliotecas municipais podiam ajudar a combater alguns défices por si citados…
É assim, quando tenho fome em casa, o livro não é uma prioridade. A ida à biblioteca também não é. Vão aqueles que são mesmo estoicos, porque, quando um miúdo ou uma criança está com tantas dificuldades, se calhar nem vê bem, não tem óculos, se calhar não ouve bem, não ouve o que o professor está a dizer, mas não há ninguém que perceba isso e que leve o miúdo a um otorrino para perceber se ouve bem ou não.
Ou seja, também estamos com deficiência no controlo da saúde escolar dos pequenos?
A saúde escolar é outra questão extraordinariamente importante quando a criança entra na escola. Eu, quando era pequena, acontecia isso: viam se tínhamos tuberculose, se víamos bem. Hoje, as nossas salas têm 100 miúdos lá dentro, naquele quadro que às vezes está pendurado, às vezes escreve-se na parede, a letra já não se vê muito bem. Quer dizer, é tudo um caminho de obstáculos.
Quando vivo nessa luta constante, há coisas que para mim não podem ser prioridade. Só a fome em si: o miúdo ir para a escola sem comer, ou comer apenas uma refeição por dia, e é uma refeição que não tem o nível de calorias que a OMS recomenda por pessoa.
Portanto, quando olhamos para a educação, não é só construir escolas, pôr lá carteiras e dar o salário que o professor exige. Tem de haver um projecto. A educação de cada país tem de estar intimamente ligada aos factores decisivos de desenvolvimento daquele país. Isso tem de começar na infância.
No nosso país, a educação não está associada aos factores de desenvolvimento?
Não. Depois temos a questão do financiamento, mas, neste momento, acho que a questão do financiamento da educação nem é o ponto da discórdia, porque mesmo que o Governo, como o sistema está agora, entornasse para lá 40 milhões de baldes com dinheiro como orçamento, e aquilo crescesse, o edifício está a tremer.
Isso é como querer ir daqui ao Namibe com um carro que tem os pneus todos remendados, que está a babar óleo. Não é possível. O que estamos a fazer é desperdiçar dinheiro, é rebentar com a capacidade das crianças, porque os miúdos vão à escola, os pais não podem fazer mais, põem-nos nessas escolas, e o que acontece é que há uma aparência de que, na verdade, temos um sistema educativo, mas não temos. Não temos um projecto educativo que esteja ligado ao tal projecto de desenvolvimento.
Estamos a comprometer, neste caso, o futuro do país?
Estamos. Não é para os próximos três ou quatro anos, mas para as gerações futuras: os meus netos, os seus netos e os filhos deles.
Qual é a apreciação que faz do actual quadro da saúde em Angola?
As políticas sociais não podem ser tratadas isoladamente. Há bocado estava a falar da educação… a maioria das nossas crianças tem baixo peso para a idade que tem, baixa altura, temos uma percentagem de anemia brutal e depois uma série de outros problemas relacionados com o consumo de água não própria, problemas de pele, a malária que afecta imensas crianças, que é a nossa principal causa de morte.
Portanto, quando estamos a falar de políticas públicas, mas sobretudo das políticas sociais, elas têm de estar interligadas. Quando digo que o fim da política social é prever a promoção da justiça social, da equidade, do bem-estar social, esta é a vocação de qualquer política social. Obviamente, ela não pode estar isolada. A educação precisa de estar associada à saúde para que todas as crianças tenham acesso a um pediatra pelo menos nos primeiros cinco anos, para ver se, na verdade, reúnem as condições que permitam ter um bom atendimento escolar.

“Não sabemos quantas crianças têm dislexia em Angola”
Pode concluir-se que vivemos numa realidade em que os pais não dominam as doenças que os filhos pequenos têm?
Hoje, quantas crianças têm dislexia em Angola? Nós não sabemos. A criança não aprende, vamos dizer que é burra. Não, ela tem dislexia. Eu tenho discalculia, nunca aprendi a tabuada, por exemplo, não sabia. No meu tempo, apanhava todos os dias porque não sabia fazer contas. Tinha 20 na redacção, mas na tabuada tinha zero. Quando nasci, ninguém sabia o que era discalculia. Só soube que tinha discalculia quando percebi que um dos meus filhos tinha alguma dificuldade na leitura, fui a um especialista, fez-lhe um teste e ele tinha dislexia. E ele até me disse: “ainda bem que só tem dislexia, porque há menores que têm dislexia, discalculia, disortografia.” Quantas crianças são assim?
Durante o seu Governo, o Presidente João Lourenço tem construído grandes infraestruturas hospitalares. Entretanto, a malária continua a ser a maior causa de morte no país. Não acha que há um défice de hospitais de proximidade para as populações?
Que há um défice de hospitais de proximidade não sou eu que o digo, são os médicos. Na verdade, a proximidade de hospitais salva vidas. Postos médicos, pequenas unidades, que também são mais fáceis de gerir, estão logo aqui. Uma pessoa que tenha uma situação de emergência às quatro da manhã e more a uma ou duas horas do hospital, a probabilidade de não sobreviver é grande.
Agora, a questão da malária não tem nada a ver com o Ministério da Saúde. Tem a ver com o saneamento básico. Podemos até ter um hospital daqueles grandes em todos os municípios, em todas as comunas, mas enquanto não tivermos saneamento básico, não vamos acabar com a malária. O mosquito não nasce no hospital, nasce nas águas paradas, na ausência de uma estrutura sanitária, que ainda é incipiente, e em muitos sítios é completamente inexistente. Nos bairros, piora, porque as casas das pessoas não estão ligadas a nenhuma forma de saneamento. O que acontece é que as pessoas utilizam as águas e têm que as deitar para algum sítio, porque dentro do quintal não há onde as deitar. Têm uma latrina muito popular para tirar aquela água dos banhos, água disso, água daquilo, e atiram-na para a frente da casa.

Identificado que está o problema, deve-se dar solução… aliás, é uma situação que se arrasta há anos…
A questão do saneamento não é inventar a roda. Os romanos já tinham água canalizada e esgotos há 4 mil anos. Nós não temos esgotos. Olhamos para essas novas urbanizações, o planeamento habitacional todo que foi feito, que é concreto, que foi um investimento que hoje surte efeito, porque moram lá muitos jovens, muita gente que antes morava num quintal ou na casa da mãe. Hoje muita gente teve acesso a um apartamento por via desta política habitacional.
Mas temos muitos sítios, mesmo em Talatona, nos condomínios, onde tem que ir lá o carro tirar [fezes] dos ricos.
Portanto, quando falava de políticas públicas, estava a referir-me a que a educação não é uma ilha, a saúde não é uma ilha, o saneamento não é uma ilha. As coisas têm de estar interligadas. Dizemos que estamos a morrer de malária, mas a ministra da Saúde não tem culpa da malária. Até podia ser eu a ministra da Saúde, não teria culpa da malária. A malária é um problema decorrente da ausência de saneamento e das condições precárias das casas.
Angola alcançou a paz há mais de 20 anos. Entretanto, todos os dias vemos crianças nas ruas pedindo esmola. Não lhe parece que estamos diante de uma situação paradoxal?
Infelizmente, não só continuamos a ver como aumentou o número de crianças na rua, como de famílias a depender do lixo, seja para comer, seja para adquirir algum tipo de dinheiro. As pessoas tiram do lixo garrafas, latas, coisas que eventualmente possam ter algum valor, para depois levar para casa e comer com os filhos. Preocupa-me muito.
Há quem entenda que, tratando-se de crianças, as autoridades deviam tomar medidas, tendo em conta o número elevado de menores nessa situação…
O problema aqui não são as crianças, o problema é a pobreza. A pobreza, a pobreza não é relativa.

“O problema das crianças na rua é a pobreza extrema”
Mas o Presidente da República disse que a pobreza/fome é relativa…
O Presidente da República tem direito a opinião, e eu respeito. Sou uma democrata. Se o Presidente acha que é relativa, é relativa, mas para mim só é relativa na casa das pessoas que têm fiambre de peru no frigorífico. Porque, para a maioria das pessoas, continuamos a ter uma camada imensa, enorme, de população que trabalha para ganhar 45 mil kwanzas, 60 mil kwanzas, nas empresas de segurança.
A questão das crianças estarem na rua tem a ver com o estado de insuficiência, de pobreza e, em alguns casos, é pobreza extrema.
É oriunda de uma família com uma forte ligação à política, e aproximando-se o sexto pleito eleitoral no país, equaciona a possibilidade de criar um partido político ou de integrar uma força política, caso seja convidada?
Não. Neste momento não estou interessada em política. Aliás, estou descrente da política, e não é só em Angola, é uma visão generalista, quase mundial. Salvam-se algumas excepções, porque, na verdade, aquilo que vemos hoje — aliás, a própria abstenção demonstra isso. As pessoas não se abstêm porque têm preguiça de votar. Na maior parte dos países do mundo, as pessoas abstêm-se porque percebem que, independentemente de estar lá o A ou o B, aquilo não muda muito.
Estamos a falar de países que têm os mínimos olímpicos: têm uma escola pública que funciona, uma administração pública que não é corrupta, um sistema judicial transparente, um sistema de saúde com um problema aqui, outro ali, mas está lá, é robusto; têm liberdade de expressão, têm protecção; a Polícia não aparece só para… como aquele caso que vimos, da jovem que foi presa e violada, e depois ainda tivemos que engolir o sapo de não deixarem fazer uma manifestação pacífica de mães, meninas, avós e tias, em prol do combate à violência doméstica. Isto é completamente absurdo. Violência doméstica não é uma questão política. Ninguém vai atacar um partido ou um governo; é chamar a atenção para uma questão que, em Angola, é absolutamente dramática.
Portanto, neste momento prefiro estar em acções mais práticas, que são as que faço, que dependem de mim, da minha capacidade de ajudar. Escrevo no jornal, vou dando a minha opinião, mostrando alguns caminhos e, na verdade, tudo o que fizer para o futuro será no âmbito da cidadania, não no âmbito da política.
Tem recebido convites?
Alguns. Mas não é por falta de convite, não quero fazer política.
De quem são os convites?
Não interessa.
Estamos a falar de partidos na oposição?
Sim, normalmente de partidos na oposição.
Que outras acções tem praticado para além de escrever textos de opinião num jornal?
São aquelas acções que a cristandade diz: com a mão direita fazes, a esquerda não tem que saber. Mas são acções que têm tido impacto. Não é bonito uma pessoa estar a dizer “ajuda”. Um dia vão atrás de mim, vão ver.
Em 2023, manifestou-se contra a inclusão do nome da sua mãe, Anália de Victória Pereira (Mamã Coragem), na lista de figuras a serem condecoradas, por considerar que “carrascos” e “vítimas” estavam a ser colocados no mesmo plano. Passados três anos, mantém esse posicionamento?
Mantenho. Por mais volta que se dê, não se consegue contornar a história. A história tem um registo que é implacável. Posso escrever um livro a dizer que aquele caminho foi construído por dez pessoas. Posso mudar a versão daquilo que eu quiser, mas há outras pessoas. Podemos enganar um ou dois todos os dias, mas não se pode enganar o resto do mundo inteiro para sempre. Quando digo enganar, refiro-me a trazer uma narrativa que não é real.
Quando se referiu aos carrascos, queria dizer o que objectivamente?
Foram condecoradas pessoas que morreram no 27 de Maio e pessoas que participaram no 27 de Maio [de 1977]. Há aqui um conflito de interesses… fica difícil, não é? Na primeira vez nem ninguém me contactou para ir lá. Soube que haveria essa homenagem porque uma prima me telefonou de Londres, a dizer que lhe tinham perguntado se ela podia receber o prémio da mãe dela. Toda a gente sabe que a Alexandra Simeão é filha única, toda a gente sabe o meu número de telefone, mas telefonaram para Londres, e a minha prima disse que vivo em Luanda e que ela não é filha da Anália.
No âmbito das comemorações dos 50 anos de independência, contactaram-me, mandaram-me uma mensagem a dizer que a minha mãe estava numa lista e depois outra a dizer que eu também estava noutra lista. Eu não fiz nada para merecer uma medalha; até agora em Angola não fiz nada que merecesse uma medalha, portanto, eu avalio-me. Pela minha mãe não fui, porque outra vez a condecoração foi tão extensiva que deixou de ter propósito. Quem homenageou tinha um propósito, mas eu não consigo encontrar um propósito ali. Tenho a certeza de que a minha mãe também não iria.
Do seu ponto de vista, ainda vivemos numa sociedade em que o nepotismo é muito acentuado nos cargos governamentais?
A política não pode ser um emprego. A partir do momento em que a política vira um emprego, ou um factor de criação de riqueza, obviamente que aí estão desvirtuados os princípios da política. Teoricamente, ninguém é obrigado a ir para a política, ninguém é obrigado a ser deputado, ninguém é obrigado a ser Presidente da República, ninguém é obrigado a ser ministro, ninguém é obrigado a ser nada. A pessoa pode ser convidada e dizer “não quero”. Mas quando a pessoa vai, é como médico, é como professor: tem que ser com espírito de missão.
Não há espírito de missão na política angolana?
Não digo que seja com toda a gente, não tenho essa audácia, não estou aqui a generalizar. O que estou a dizer é que os resultados ao fim de 50 anos mostram que não há esse espírito de missão.
No ano passado, Angola completou 50 anos de independência. Que avaliação faz do país?
O país cresceu, o crescimento do país é uma coisa que vemos: aeroportos, estradas, muitas empresas, muitos hotéis, escolas, hospitais, fábricas, cidades inteiras comerciais que tivemos lá para aquela zona do Zango e tudo mais. Portanto, o país cresceu. O problema é que o crescimento tem que pressupor, ao mesmo tempo, desenvolvimento.
Quando olhamos para o desenvolvimento, vemos que ele não está lá. Por exemplo, quando temos relatórios de organismos internacionais a falar dos nossos índices, a história é outra. O índice da fome: somos o terceiro ou quarto país do mundo com mais fome. Não se justifica, não vendemos só banana, vendemos outras coisas, vendemos commodities.
O que se passou nestes 50 anos? Nem sempre as escolhas, os modelos económicos, os modelos de governação, as prioridades, nem sempre foram aquelas que o país merecia, e hoje vemos a situação em que estamos.
Próximo ano teremos eleições gerais. Qual é o seu prognóstico?
Não sei. Estou a ser sincera, não sei. Neste momento, nós que não somos políticos estamos todos a olhar para o que vai acontecer: jornalistas, professores, médicos, estamos todos a olhar para o que é que vai acontecer.
Comenta-se, muitas vezes, que próximo dos pleitos eleitorais em Angola tem havido movimento de estrangeiros a deixar o país. Será por desconfiança de um cenário de instabilidade?
Imagine que vou trabalhar para um país com as condições, por exemplo, de Angola, e o meu país tem condições melhores. É natural que, a cada momento em que vai haver uma eleição, tendo em conta que a maior parte das vezes as eleições são livres, mas contestadas como não tendo sido justas, as pessoas digam: “Vou pegar nos meus filhinhos, vou lá ver na televisão o resultado. Se ninguém se matar, se continuar tudo calmo, regresso.” Isso também acontece com alguns angolanos que têm muitas casas, tiram as famílias nesta altura. Tem a ver com a confiança na estabilidade de um país.

“Estamos sentados em cima de um barril de pólvora”
Há receios muito fortes?
Meu caro amigo, estamos sentados em cima de um barril de pólvora. Somos 36 milhões de habitantes, com um índice de pobreza extraordinário. A sorte que temos, Governo, povo e toda a gente que vive aqui, é que temos tido até agora um povo pacífico. Somos intrinsecamente pacíficos: gostamos de rir, de abraçar, de comunicar. Isso é extraordinariamente importante.
Só que hoje estamos perante uma realidade em que 75% da população tem menos de 35 anos, não conheceram o colono, não conheceram o 27 de Maio, não conheceram a guerra.
Isto constitui, em qualquer sociedade, uma apreensão. Já deviam ter acendido todas as luzes vermelhas, todos os alertas. Mas não é reprimindo as pessoas, é criando condições para que, com políticas sociais decentes, consigam atingir um patamar de bem-estar, que tenham os mínimos olímpicos da decência. Não estamos a pedir uma casa com piscina para todos, mas os mínimos olímpicos da decência: comer três vezes por dia, ter uma escola, ter água, poder ter uma casa com condições. Não tem que ser uma mansão, apenas uma casa em função da família.
Qual é a sensação que tem quando vai à rua?
A sensação que temos quando olhamos pela janela, quando vamos à rua, quando vamos aos bairros, é que se o Governo desaparecesse durante dois anos, muita gente não ia notar. Porque no seu sítio, ele não é atingido por nenhum tipo de política, não é atingido por nenhum benefício. Ele está em modo de sobrevivência.
Mas o Governo tem os seus parceiros sociais e conhecimento da situação do país por via, por exemplo, dos dados do INE…
Nós não somos ouvidos. O Governo muitas vezes chama as organizações não governamentais para darem a sua opinião. Há uma auscultação, mas depois da auscultação tem que haver conciliação. Se eu vou lá para dizer, eles ouvem, escrevem, mas nada do que fomos lá dizer importa. Vão-me chamar mais para quê? Não vou mais.

“Sou positiva, acredito que Angola um dia será diferente”
Como se define?
Sou uma pessoa positiva. Acredito em Angola, acredito que este país um dia será diferente. Acredito que todos, quando saímos de casa, temos a obrigação de ser a nossa melhor versão. Todos nós, no sítio onde estamos, temos o dever de ser éticos, de transformar o nosso dia a dia, de contagiar positivamente as pessoas que nos rodeiam, apontando um erro no sentido: “Não faças isso, isso não é bom para o país”, ou aplaudir aqueles que estão a fazer o que está bem. Mesmo no Governo, algumas pessoas estão a trabalhar bem; não está tudo mal. Agora, quando se faz a radiografia geral ao corpo, não se pode dizer que o indivíduo é saudável, porque tem tantas coisas lá dentro que não o tornam saudável.
Continuo a ser uma pessoa super optimista. Não ataco pessoas, aponto soluções, porque o meu amor por este país é tão grande, a minha vontade de ajudar é tão grande, que fiz um mestrado em Política Social só para perceber, para ter mecanismos, para ajudar outras pessoas, para poder ser útil, inclusive nas abordagens que faço. Não há aqui nenhum tipo de pessimismo. Agora, não temos os olhos tapados: também não podem querer que todos os dias nos digam que aquilo é verde, quando vemos que é azul. Também já somos crescidos.

