Foi substituído por Filipe Zau no cargo de ministro da Cultura, Turismo e Ambiente em 2021. Quatro anos depois, qual tem sido a sua principal actividade?
Tenho as minhas paixões. Foi com base nelas que passei para ministro da Cultura, onde já trabalhava há muito tempo. Já fiz vários projectos e já fui director do Instituto Angolano do Livro e do Disco (INALD). Gosto desta designação, embora hoje tenha outra, mas a verdade é que sempre vivi das minhas paixões, que são a música e a literatura.
Faço alguma crítica literária, mas fundamentalmente trabalho sobre a história da música popular angolana, que é pouco explorada entre nós ou, quando é explorada, é mal explorada, sem metodologia. A história exige metodologia, forma de investigação, análise da discografia, quando houver, e periodização, ou seja, os grandes períodos da história da música angolana, incluindo o processo de consolidação do Semba desta área de Luanda e arredores.
A verdade é que nunca paro. Tenho estado a trabalhar nestes dois domínios e a fazer algumas tentativas no domínio empresarial.
Disse que no domínio empresarial também tem feito algumas tentativas. Em que sectores, objectivamente?
É muito incipiente. No fundo, no lado empresarial, vou recebendo conselhos de amigos que estão muito mais avançados nesse domínio. Refiro-me ao domínio da hotelaria e também ao da cultura, com a realização de eventos. Gosto muito da organização de eventos e a minha empresa tem trabalhado nesse domínio.
Espaços culturais em ruínas: O desafio de recuperar cinemas e teatros
Antes havia grandes salas e espaços de demonstração cultural, como Miramar, Karl Marx, São Paulo, Cine Teatro Nacional, Tivoli, Tropical, Kipaka e Ngola Cine. Hoje, muitos estão ao abandono, sem um horizonte temporal para reabilitação ou modernização.
Bem, isso é uma questão de gestão dos espaços. Os espaços para o cinema são para o cinema, tal como as alfaiatarias estão para zonas de alfaiataria. Portanto, trata-se de uma questão de gestão. Estamos numa fase de reorganização do país, tendo em atenção o nosso passado e algumas assimetrias.
Acho que deveríamos recuperar os espaços para o cinema, espaços para exibição e para formação. Sou muito apostado na formação. Quando penso em cultura, penso na investigação, na formação, no domínio da cultura e da gestão cultural, que é um domínio novo e em que Moçambique já está muito avançado, só para citar um dos países africanos de língua portuguesa.
Não se tem apostado seriamente na formação?
A verdade é que precisamos de apostar seriamente na formação, quer na área artística, quer na área do património. Mas formação séria: precisamos de referências, de formar formadores. A educação, para nós, é um aspecto fundamental. Em tempos perguntaram-me qual era a minha opinião sobre os 50 anos da independência de Angola e dei apenas uma resposta: a educação. A educação é o que nos torna independentes.
Falo da formação para o universo do mercado de trabalho. Temos uma juventude muito inteligente e ávida por aprender. Sou professor e sei do que falo, pelos grandes talentos que passam por mim. O problema é a qualidade da formação. Não é apenas a formação em si, é a qualidade da informação.

Educação em crise: Formação de qualidade como base do desenvolvimento
Da sua parte, tem a percepção de haver uma mediocridade muito grande na qualidade do ensino?
Muito grande, muito grande. Actualmente, vai-se perdendo a autoria, ou seja, os autores e investigadores da ciência, com o advento das novas tecnologias da esfera comunicacional. Estou a falar de ciência. Temos a internet e um espaço digital que foi ocupando a leitura, embora também exista leitura no espaço digital, mas a verdade é que os jovens hoje têm uma imagem do mundo baseada no mundo da imagem.
Antigamente, pelo menos na minha geração, criávamos imagens a partir da leitura. Hoje é diferente. Temos um tablet, temos imagens. Por exemplo, se lermos a frase “havia uma casa em cima da colina”, cada um imagina a sua casa. Tu imaginas a tua, eu imagino a minha, e há inúmeras casas em cima da colina. Hoje não: temos uma imagem, uma para todos.
Quero com isso dizer que a leitura propicia a criatividade e que, com a leitura, há menor probabilidade de ocorrência de erros ortográficos, pela memorização da palavra escrita. Defendo, portanto, o convívio das novas tecnologias, das quais já não podemos dispensar na actualidade, com o livro físico. Sou um sujeito que defende o convívio entre estes dois universos de apreensão do saber.
O Governo decidiu transformar a antiga Assembleia Nacional no futuro Palácio da Música e do Teatro. Qual é a sua opinião sobre esta iniciativa?
Muito boa, muito positiva. Espero que a inauguração seja para breve, até porque temos muitos problemas ao nível dos equipamentos. Basta ouvir os técnicos de teatro, que frequentemente lamentam a ausência de espaços adequados.
Há, por exemplo, uma companhia de teatro instalada na escola Nzinga Mbandi, num espaço que parece ter sido um anfiteatro ou um ginásio. As escolas, quando são desenhadas, têm espaços com funções específicas. As bibliotecas escolares, por exemplo, onde é que andam? Com certeza, em muitos casos, transformaram-se em cantinas, onde se vendem hambúrgueres, entre outras coisas.
Isso tem de mudar, porque temos de ser um país normal. Tão simples quanto isso.
Assinala-se, por exemplo, que tem faltado bibliotecas, ginásios e outros equipamentos nas infra-estruturas escolares que têm sido erguidas pelo Governo. Também tem essa apreciação?
Olha, estás a fazer uma observação muito pertinente. Ainda há minutos estava a ver a inauguração de uma escola, não sei em que província, e interroguei-me sobre onde estão os ginásios para o exercício físico. A expressão latina diz: mens sana in corpore sano, ou seja, mente sã num corpo são. Nas escolas temos de ter biblioteca, cantina e ginásio.
Há outro problema, que é a formação de professores. Para começar, o professor tem de dominar a bibliografia da matéria que lecciona e aconselhar a leitura de determinados livros. Tive uma professora, e vários outros professores, que, antes de começarem a aula, escreviam a bibliografia no quadro. Ou seja, aquilo que iam explicar podia ser encontrado nesses livros.
Havia uma corrida, logo que a aula terminava, para procurarmos esses títulos bibliográficos inscritos no quadro antes do início da aula.
Em suma, actualmente estamos com um ensino deficitário?
Com um nível muito alto de deficiência, meu amigo. O problema é o perfil do professor. Temos de investir no perfil dos professores, porque tudo isto está interligado. Está relacionado também com a situação económica do país. Provavelmente, muitos dos grandes professores estão hoje em grandes empresas petrolíferas, de diamantes, entre outras.
Havia, e espero que ainda haja, qualidade de ensino nas províncias. Estudei no Huambo; fui para lá em 1979 para fazer o ensino médio e sei do que falo em relação à qualidade de ensino que encontrei já depois da independência. Com o tempo, o ensino foi-se degradando. Essa degradação, essa ausência de qualidade no ensino vai projectar-se no perfil do técnico angolano e, consequentemente, no seu trabalho.
Há quem entenda, por exemplo, que as deficiências citadas, tanto na Educação como na Cultura, estão associadas ao facto de ambos os sectores serem parentes pobres do Orçamento Geral do Estado. Partilha da mesma opinião?
Concordo. Isso é clássico nos orçamentos e não é apenas em Angola. Temos de ter planos e planear aquilo que pretendemos para o país. Se queremos um país que se desenvolva em determinadas áreas, a formação tem de estar circunscrita a essas áreas.
Não faz sentido elaborar um plano de Educação abstracto, um plano que não tenha relação com aquilo que pensamos e projectamos enquanto país. A Educação não é uma ilha. Está relacionada com os objectivos que queremos alcançar como país, e a formação tem de estar ligada ao mundo do trabalho, ou melhor, às deficiências do mundo do trabalho.
Se temos estradas esburacadas, precisamos de engenheiros de estradas; se há problemas nos hospitais, precisamos de melhor formação médica; se há fragilidades na indústria têxtil, precisamos de quadros preparados para esse sector. Acho que tudo isso já está pensado. Não estou a inventar a pólvora. Esse raciocínio é uma lapalissada, um déjà-vu.

História da música angolana: Um património pouco explorado e mal contado
Como olha para o cancioneiro angolano, 50 anos depois da nossa independência?
Acho que temos de ressuscitar, se quisermos investir na música endógena, numa música com rosto angolano. Precisamos de motivar a reaparição do músico investigador. O músico investigador é aquele que sai da cidade e vai para o campo, convive com as populações e aprende o cancioneiro tradicional.
O sóciosistema rural tem a sua própria estrutura musical, e não é desordenado. Há música para casamento, para circuncisão, música fúnebre, entre outras. Portanto, temos de ressuscitar essa lógica e criar prémios para o músico investigador. Mas tudo isso está relacionado, obviamente, com a formação.
Se eu estudar os clássicos da literatura angolana, de certeza que vou escrever melhor ou reutilizar referências, à semelhança do que fez Rui Mingas, que cantou poemas de Mário António Fernandes de Oliveira, de António Jacinto, de Agostinho Neto e de vários outros poetas. A ideia é aproximar a música popular dos poetas angolanos. Isso também é uma forma de garantir qualidade nos textos.
Contudo, vivemos épocas diferentes…
É claro que vivemos uma época diferente e os contextos são outros, mas há linhas e eixos fundamentais que nunca devemos perder de vista em relação à nossa música tradicional, nomeadamente a passagem da música tradicional para a música popular.
A música tradicional é aquela em que as criações são, em regra, colectivas. Ao contrário da música popular, em que existe um autor individualizado. David Zé e Urbano de Castro são música popular. Yola Semedo e Eduardo Paim são música popular. A música tradicional vem de trás, o autor perdeu-se no tempo, mas a estrutura mantém-se. A música popular tem desdobramentos de acordes e é mais propensa a influências. Por isso, é necessário criar estruturas educacionais que levem os jovens a investigar nesse domínio. Estamos a falar de cultura, de arte, de património imaterial.
Hoje há música jovem com qualidade, mas fora do sucesso comercial. Não ouvimos, por exemplo, Mito Gaspar nas rádios, mas a sua obra é de uma importância fundamental. Não se deve confundir sucesso comercial com música de qualidade que está fora do circuito comercial.
Há quem entenda que alguns meios de comunicação social, sobretudo radiofónicos e televisivos, têm promovido a mediocridade musical nas suas plataformas. O que pensa sobre isso?
Bem, temos de ver qual é a geração que está nas rádios. O tempo passa, as gerações mudam, os gostos mudam, mas é possível reorientar o gosto musical. Ao contrário do que possa parecer, nós podemos influenciar o gosto através de uma estratégia pedagógica.
Conheço jovens que tinham determinado gosto musical e, depois de muito convívio comigo, mudaram. Tive um aluno que disse: “Professor, depois de frequentar a tua casa, quando voltei para a minha, parti todos os discos.” Ele teve uma reorientação do gosto.
Isso mostra que a cultura musical, a cultura artística, tudo o que se relaciona com o gosto e a audição, tem de estar presente nas rádios e nos meios de comunicação. Não podemos ter uma estrutura musical monolítica. É preciso variar, conhecer os grandes universos da música e fazer com que os jovens descubram novos gostos. Pode ser que eu tenha ouvido sensível para um determinado género, mas nunca o tenha explorado; por isso, a diversidade é fundamental.
No passado era diferente?
Na época colonial, coexistiam duas “paradas”: a da música ocidental e a da música angolana, com grupos como os Kiezos e os Jovens do Prenda, entre outros. Tudo isso se dava nos espaços de venda de discos, que foram desaparecendo. Hoje temos as plataformas digitais, que substituíram os discos, embora o vinil esteja sendo ressuscitado ultimamente.
Mudando de assunto, embora Angola seja um Estado laico que garante a liberdade religiosa, como olha para a proliferação de seitas religiosas no nosso país?
O Estado angolano é laico, mas temos de defender a liberdade religiosa. O problema está nas interpretações que se fazem das crenças e dos dogmas, especialmente quando entram em conflito com os direitos humanos, e na dimensão comercial do fenómeno religioso. É aí que reside, fundamentalmente, o problema.
O Estado tem de reorientar essa questão com base na lei. Falando de forma geral, precisamos dar mais força ao nosso Estado para intervir sempre que algo se apresente sob a capa de religião, mas afecte direitos humanos e a dignidade das pessoas, algo que vemos diariamente e que, com as redes sociais, se tornou ainda mais evidente.
Uma das vantagens das redes sociais, embora Umberto Eco as considere um espaço dos estúpidos e da “estupidificação”, é que também têm um lado positivo.
E qual é a sua opinião sobre as redes sociais?
Acho que há excessos nas redes sociais. Eu uso muito mais o WhatsApp, por questões de trabalho e de comunicação. Há grandes vantagens: podemos ver imagens e informações que, de outra forma, levaríamos horas ou dias para acompanhar.
Mas a verdade é que as redes sociais precisam de disciplina. Não só disciplina, como também medidas coercivas, porque tudo o que afecta os direitos humanos e a dignidade humana tem de ser combatido. Isso é algo que encontramos diariamente nas redes sociais: fake news, informações falsas, etc.
Agora, com a Inteligência Artificial, a situação torna-se ainda mais perigosa.

O antes de o depois: Relação com o Presidente da República, João Lourenço
Pouco mais de um ano depois de ter sido nomeado ministro da Cultura, Turismo e Ambiente, foi exonerado em 2021. Sai magoado do Governo?
Eu não.
Domina qual foi a razão da sua exoneração?
Muitas delas desconheço. Há coisas que vou ouvindo, mas não faço referências públicas a isso. Aliás, é um assunto que não gosto muito de abordar. Para mim é passado e sigo em frente. Vou ser franco.
Lida muito bem com os seus antigos colegas do Governo?
Lido. Fui condecorado. Se fui condecorado, alguma coisa…
Higino Carneiro também foi condecorado…
Eu não gosto muito de política. Aceitei a sua entrevista para falar de cultura, música, literatura, gestão cultural, etc. Eu não gosto muito de política.
Mas o ser humano é um animal político por natureza…
Quer que lhe fale sobre a minha relação com o Presidente da República, João Lourenço? É cordial, é cordialíssima. Ele tem um lado do humor muito afinado, e eu também tenho. Estamos sempre a rir os dois. É uma pessoa que respeito muito.
Nunca fui ministro; foi graças ao João Lourenço que o meu currículo se alargou nessa função. Tenho de respeitá-lo e de lhe agradecer. Ainda recentemente o agradeci quando fui condecorado. A minha relação com o Presidente João Lourenço é natural, provavelmente porque ele já acompanhava o meu trabalho antes.
Não sentiu que era um “fardo muito pesado” ser ministro da Cultura, Turismo e Ambiente?
Não. É uma questão de metodologia de trabalho. Se tens uma boa equipa, e a equipa trabalha de forma independente e depois presta contas, não há problema. Nas segundas-feiras tínhamos reuniões com os três Secretários de Estado, da Cultura, do Turismo e do Ambiente, para aferir e analisar os projectos. Não havia problemas.
É uma questão de método, de visão e de estratégia de cada um.
Do seu ponto de vista, em Angola tem havido rigor na atribuição de licenças para universidades?
Acho que sim. Agora, se há pessoas que se afastam da lei, isso é outra questão. Tem de haver coerção e princípios claros na base da cedência das licenças para o ensino universitário.
É um assunto muito sério, porque tem implicações no perfil do técnico angolano que entra no mundo do trabalho, especialmente se houver deficiências no domínio da ciência.
Muitos empregadores contestam a qualidade dos quadros recém-formados em algumas universidades…
É um problema da qualidade do ensino. Acho que temos de rever quase tudo, ao nível das línguas, da matemática, da história e da geografia. Três eixos fundamentais, que considero de suma importância. Falo sempre da necessidade de formarmos formadores, especialmente no domínio das línguas. Quem domina a língua materna tem mais probabilidade de aprender línguas estrangeiras.
O ensino da língua e da linguística também nos direcciona para a reflexão filosófica. Estou a falar de línguas, mas isso serve para o estudo da antropologia, da cultura, da teorização do fenómeno literário, entre outros. Nem que tenhamos de contratar estrangeiros para que a base fique sólida; depois, o processo segue de forma independente e natural.
Daquilo que é o estudo que tem feito da nossa cultura, Angola que temos hoje no campo musical e cultural era aquela que desejava 50 anos depois da independência?
Meu amigo, o que se passa é que temos um ensino desestruturado. A ausência de qualidade no nosso ensino contamina directamente outros domínios do conhecimento. Se tivéssemos um ensino de qualidade, pelo menos ao nível do ensino médio, no universitário depois se ajustaria, tudo seria diferente.
Um ensino básico bem estruturado mudaria a criação artística, as motivações para a investigação científica e os domínios de estudo em antropologia, etnografia e o estudo dos povos de Angola, que já era feito na época colonial com alguma seriedade. Tudo isso surge com uma base educativa sólida.
Temos de melhorar o ensino; se o fizermos, tudo mudará. Até problemas sociais, como crianças a comer em contentores, provavelmente desapareceriam, porque haveria famílias mais estruturadas. Mas também precisamos compreender o nosso contexto histórico: a guerra deixou erros no passado que ainda sofremos hoje. Temos a tendência de atribuir os erros apenas às pessoas ou à governação, sem análises profundas. É necessário reflectir seriamente sobre isso.
Jomo Fortunato, como gostaria de ser lembrado?
Gostaria de ser reconhecido como um cidadão que deu o seu contributo no domínio da cultura e do ensino.
Há alguma coisa que não disse e gostaria de acrescentar?
Se quer que eu diga mais alguma coisa, é sobre ensino e educação. É isso que falta entre nós: qualidade no nosso ensino, sobretudo nas ciências exatas. Preciso saber onde andam os matemáticos angolanos, os grandes físicos, químicos e especialistas em tecnologias de computadores. São eles que vão propiciar o desenvolvimento.
Claro que há formação artística e ciências humanas, mas as ciências da natureza são fundamentais. As ciências exactas fazem parte desse grupo, e o mundo está dividido entre ciências humanas e ciências da natureza. Temos de evoluir em ambos os domínios.
Eu já fui angopessimista, mas agora, após algumas reflexões, estou mais angoptimista. Temos muitos jovens inteligentes. Se encontrarem boas escolas e ensino de qualidade, teremos grande desenvolvimento. Já se percebem sinais: muitos angolanos estão a produzir na área tecnológica.
É possível fazer muito mais: melhorar o ensino básico, especialmente o primário, e imprimir mais angolanidade em todo o processo educativo.

