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Mihaela Webba: “João Lourenço preferiu salvar o MPLA e não Angola”

Em “Grande Entrevista” ao Polígrafo África, a pouco mais de um mês do XIV Congresso da UNITA, Mihaela Neto Webba, deputada e terceira vice-presidente do Grupo Parlamentar do galo negro, traça um retrato minucioso do ambiente interno do partido, das lições deixadas pela crise de 2019 e do papel de Adalberto Costa Júnior na afirmação da oposição. Fala sem rodeios sobre reconciliação interna, o peso político do nome Savimbi, a ausência de autarquias, sem descartar o risco de João Lourenço prolongar o poder pela via da instabilidade.
© Polígrafo África

Faltando pouco mais de um mês para a realização do XIV Congresso da UNITA, agendado para os dias 28, 29 e 30 de Novembro, como descreve o ambiente político que se vive neste momento no seu partido?

Falar do ambiente político que se vive actualmente na UNITA é referir um momento muito bom. Estamos numa fase que cumpre, de forma exemplar, o que está estabelecido nos nossos documentos reitores. O mandato do engenheiro Adalberto Costa Júnior chegou ao fim e, em conformidade com os estatutos, a Comissão Política reuniu-se seis meses antes, mandatando o Comité Permanente para organizar todas as actividades preparatórias do Congresso.

O presidente convocou o Congresso com 90 dias de antecedência, marcando-o para os dias 28, 29 e 30 de Novembro. Penso que estamos no bom caminho: já existem, pelo menos, duas candidaturas apresentadas, o que é um sinal saudável de vitalidade democrática. Desde 2003, a UNITA tem vindo a privilegiar o princípio de várias candidaturas, rejeitando a ideia de candidatura única. Por isso, estamos nesse momento a iniciar a fase da nossa festa, que vai terminar no dia 30 de Novembro de 2025.

A UNITA prepara-se para um novo congresso, enquanto persistem feridas abertas desde o conclave de 2019, que o Tribunal Constitucional acabou por anular. Que lições retirou o partido desse episódio? Há espaço para reconciliação interna e reintegração dos militantes suspensos ou expulsos?

Em primeiro lugar, considero que o Tribunal Constitucional cometeu um erro. E explico porquê. Na altura em que se discutia a legalidade do Congresso da UNITA de 2019, foram apresentados dois documentos fundamentais sobre a questão da nacionalidade do candidato Adalberto Costa Júnior: uma certidão de narrativa completa, que confirmava a sua renúncia à nacionalidade portuguesa, e uma declaração emitida pela então ministra da Justiça de Portugal, doutora Francisca Van-Dúnem, que corroborava essa informação.

Estes dois documentos provavam inequivocamente que Adalberto Costa Júnior já não possuía nacionalidade portuguesa. O Tribunal Constitucional, contudo, anulou o Congresso precisamente com base nessa questão, quando todos os demais actos haviam sido válidos. Na verdade, o que o Tribunal deveria ter feito era apenas exigir a repetição do processo eleitoral. Ao invés disso, decidiu invalidar todo o Congresso, obrigando-nos a repeti-lo na íntegra.

Mas o próprio estatuto na UNITA proíbe o candidato a presidente da organização de ter mais de uma nacionalidade, certo? Até à data em que Adalberto Costa Júnior concorreu, tinha ou não dupla nacionalidade?

É verdade que o Estatuto da UNITA proíbe qualquer candidato à presidência do partido de possuir dupla nacionalidade. No entanto, até ao momento em que o Comité Permanente se reuniu, Adalberto Costa Júnior ainda detinha ambas as nacionalidades. No instante em que apresentou formalmente a sua candidatura, já tinha renunciado à nacionalidade portuguesa. Foi com base nessa condição que a sua candidatura foi validada pela Comissão de Mandatos, órgão competente para aferir a conformidade dos documentos apresentados pelos candidatos. O Tribunal Constitucional, contudo, ignorou essa decisão e preferiu basear-se na acta da reunião do Comité Permanente, que apenas recomendava que o candidato deixasse de ter nacionalidade portuguesa. Na realidade, quem tem competência estatutária para validar as candidaturas é a Comissão de Mandatos, e não o Comité Permanente.

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“Não há caça às bruxas, mas disciplina partidária”

Entretanto, o que tem a dizer sobre o espaço para reconciliação interna e reintegração dos militantes suspensos ou expulsos da UNITA depois desse processo?

Devo dizer que os militantes que foram expulsos o foram porque recorreram ao Tribunal Constitucional, apesar de saberem claramente que não tinham fundamentos válidos para o fazer. O Tribunal Constitucional aproveitou-se do facto de alguns militantes activos da UNITA terem impugnado um Congresso que, do ponto de vista da sua estrutura e documentação, estava completamente válido. Enviámos toda a documentação necessária dentro do prazo de 45 dias, conforme exige a Lei dos Partidos Políticos, pelo que não fazia sentido invalidar o Congresso de 2019. No entanto, esses militantes insistiram na impugnação, por entenderem que Adalberto Costa Júnior não deveria ser presidente da UNITA.

Perante esta situação, o Conselho Nacional de Jurisdição, órgão de jurisdição e auditoria do partido, iniciou uma série de processos disciplinares para sancionar os militantes implicados, especialmente aqueles que não cumpriam as regras estatutárias, como o recurso à imprensa pública ou às redes sociais para desvalorizar a direcção eleita no Congresso repetido de 2021.

Não se tratou de um cenário de caça às bruxas?

Não, não se tratou de um cenário de caça às bruxas. E digo isto porque a UNITA aceitou a decisão do Tribunal Constitucional. Constitucionalmente, todas as decisões dos tribunais são de cumprimento obrigatório. Portanto, embora não concordássemos com a decisão, tivemos de a acatar.

Aceitando-a, foi necessário convocar rapidamente um novo Congresso e realizá-lo. Aqueles que, na altura, já não faziam parte das estruturas partidárias, não participaram neste Congresso e ficaram, por isso, de fora. Infelizmente, até um dos candidatos de 2019 não foi eleito para a Comissão Política. Como não integrou a Comissão Política, em 2025 não pode sequer candidatar-se à presidência da UNITA.

Refere-se a José Pedro Kachiungo?

Refiro-me, de facto, ao dr. José Pedro Kachiungo. Um dos requisitos para se candidatar à presidência da UNITA é ser membro da Comissão Política, condição que ele não cumpria.

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“Entre Rafael Savimbi e Adalberto Costa Júnior, não haverá divisões”

Rafael Massanga Savimbi, filho do fundador da UNITA, anunciou a sua pré-candidatura à presidência do partido. Tendo em conta o peso histórico do nome da família, considera que esta candidatura pode aprofundar divisões ou trazer uma nova dinâmica?

Não acredito que esta candidatura vá provocar divisões. Rafael Massanga Savimbi é filho da UNITA: nasceu e cresceu no seio do partido. Ele conhece o valor histórico da UNITA e entende que o partido continua a ser um instrumento de luta em defesa dos menos equipados. Por isso, não vejo motivo para divisões internas; no final, todos nos entenderemos, porque somos, antes de mais, irmãos.

 

Neste congresso não se prevê que se repita o que aconteceu em 2019. Na fase de preparação, fala-se na existência de alas dentro da UNITA: uma que apoia Adalberto Costa Júnior e outra, mais conservadora e ligada ao antigo presidente Isaías Samakuva, que estaria do lado de Rafael Massanga Savimbi…

Penso que, por parte de algumas pessoas, existia a intenção de que o presidente Isaías Samakuva voltasse a candidatar-se neste pleito de 2025. Não tendo isso acontecido, é natural que aqueles que o apoiavam manifestem agora uma tendência para apoiar Rafael Massanga Savimbi.

Há algum tempo, o próprio Isaías Samakuva deixou em aberto a possibilidade de se candidatar novamente à presidência da UNITA…

Na minha opinião, ele não deixou essa porta aberta. O presidente Samakuva tem uma característica muito própria: mesmo em 2019, lembro-me que muitos nos perguntávamos a quem votar, face a cinco candidaturas. E ele respondia: “São cinco candidaturas, votem em quem quiserem. O voto na UNITA é secreto, consciente e de acordo com a consciência de cada um”.

Além disso, a larga maioria das pessoas que afirmam apoiar Rafael Massanga Savimbi nem sequer será delegada ao Congresso. Muitos estão expulsos, outros não pagaram quotas nos últimos seis anos, nem participaram em comités de base ou concorreram a órgãos municipais ou provinciais. Se não são delegados, não poderão votar no XIV Congresso e, portanto, não terão influência directa na eleição do presidente da UNITA.

O seu nome consta de um manifesto de apoio a reeleição de Adalberto Costa Júnior à presidente da UNITA, quando em 2019 teve posição contrária. Qual é a sua real motivação na reeleição de ACJ?

Antes de responder, devo dizer que trabalhei com o engenheiro Adalberto Costa Júnior desde 2010 e 2011, praticamente. Era natural que eu o apoiasse. Naquela altura, no entanto, entendia que o meu candidato seria alguém que nem sequer se dispôs a concorrer.

 

Quem era o seu candidato na altura?

(sorriso)… Isso é segredo. Na altura, entendia que era o momento ideal para Rafael Massanga Savimbi ou Liberty Chiyaka avançarem. Achava que era a altura certa para ambos, mas infelizmente nenhum decidiu candidatar-se. Em 2019, fiquei sem candidato, não me revia em nenhum deles e, portanto, votei naquela pessoa que me parecia mais próxima de mim. Foi quem me recebeu na UNITA quando entrei, o general Kamalata Numa.

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“Adalberto é o homem de que o inimigo não gosta”

Quais são, então, as razões que agora a levam a apoiar Adalberto Costa Júnior em detrimento de Rafael Massanga Savimbi, a quem até consideraria apoiar em 2019 se tivesse avançado?
Primeiro, Rafael entrou na corrida tarde. Em segundo lugar, acredito que, entre os dois, quem mais é fustigado e perseguido pelo regime é Adalberto Costa Júnior. Há uma máxima de Dr. Savimbi que dizia — e eu tento recordar as palavras: “Quando eu não estiver entre vós, escolham aquele de que o inimigo não gosta.” Entre os dois candidatos, o adversário, neste caso o MPLA, não gosta efectivamente de Adalberto Costa Júnior. Esse é um motivo.

Além disso, estes seis anos, que ele acabou por cumprir devido ao adiamento do Congresso, reforçaram a sua popularidade, sobretudo fora da UNITA. Isso coloca-o numa posição em que, em 2027, poderá estar apto para disputar e potencialmente vencer as eleições em Angola. Para mim, isso faz todo o sentido.

Da sua análise, que diferenças identifica entre a UNITA do tempo de Isaías Samakuva e a actual UNITA sob a liderança de Adalberto Costa Júnior?

A UNITA do presidente Samakuva foi uma UNITA que emergiu do período pós-guerra. Ele conseguiu unir a UNITA da missão externa com a que permanecia no território nacional, reunindo irmãos anteriormente desavindos e congregando todos, sobretudo os da chamada UNITA Renovada. Esse êxito permitiu que o partido começasse a ser visto com outros olhos pela sociedade angolana.

Mas os resultados eleitorais de 2008 não foram positivos para a liderança de Samakuva…

Os resultados de 2008, para além de terem sido fraudulentos, foram também consequência do contexto pós-guerra.

 

Alguns defendem que foi mais uma consequência da guerra do que fraude eleitoral…

Não, houve fraude em 2008. Na altura existiam cerca de 12 mil mesas móveis, que, se contabilizadas, dariam aproximadamente 3 milhões de votos para o MPLA. Isto configura claramente fraude. Por causa disso, a UNITA sempre se bateu, em 2012, 2017, 2022 e agora em 2025, contra a introdução das mesas móveis na Lei Orgânica sobre as Eleições Gerais. Felizmente, conseguimos impedir o regresso das mesas móveis, porque, sem controlo, surgem votos fantasmas.

Em 1992, o MPLA tinha maioria absoluta, em 2008 conseguiu um resultado mais alargado. Essa alteração pretendia flexibilizar a Constituição a gosto de José Eduardo dos Santos, criando um modelo em que o Poder Executivo dominava praticamente todos os outros poderes: Legislativo, Judicial e até a imprensa.

A saída de Nelito Ekuikui do comando da UNITA em Luanda para dirigir a JURA, depois de ter derrotado o MPLA na capital em 2022, é descrita por alguns como um “fiasco político”. Que leitura faz dessa decisão e das suas consequências na estrutura do partido em Luanda?

Nelito Ekuikui decidiu deixar o comando da UNITA em Luanda para se dedicar à JURA porque, na eleição anterior, tinha ficado em segundo lugar. Desta vez, quis assumir a liderança da Juventude da UNITA em todo o país. Embora Luanda seja uma circunscrição importante, a responsabilidade de gerir a juventude nacional é muito maior e exige mais trabalho. A nível pessoal, esta mudança representa um progresso: permite-lhe ganhar experiência e consolidar conhecimento da máquina do partido. A juventude de hoje são os dirigentes de amanhã, e, conhecendo bem a estrutura, Nelito Ekuikui poderá, dentro de um ou dois mandatos, apresentar-se como candidato à liderança máxima da UNITA.

Falando ainda de movimentações internas, registaram-se mudanças na direcção provincial da UNITA em Luanda, com Irina Diniz a ser nomeada secretária-adjunta. A nomeação gerou contestação interna, com alegações de não cumprimento dos requisitos estatutários e por suposta proximidade com o MPLA. Este episódio recorda, de certa forma, a resistência que também enfrentou. Acha que a UNITA ainda tem dificuldades em aceitar quadros vindos da sociedade civil ou com alguma ligação ao MPLA?

Eu penso que a nomeação da Irina demonstra que na UNITA conseguimos congregar todos aqueles que se sentem patriotas e que veem no partido uma forma de fazer política livre. Quando entrei na UNITA, em 2010, a minha situação foi ainda mais pior do que a dela. Em 2011, no congresso, fui logo eleita para a Comissão Política, mesmo com apenas um ano de militância. No caso da Irina, não houve violação estatutária: ela cumpre o requisito de estar na UNITA há dois anos e foi nomeada para um órgão intermédio, não para a direcção nacional, portanto tudo está conforme o regulamento interno.

Alguma vez se sentiu marginalizada na UNITA por ter origens do Norte, sobretudo de Luanda e Malanje?

Não. Sempre fui muito bem tratada na UNITA. Represento membros do Norte, e os resultados eleitorais recentes mostram que o voto da UNITA se expandiu significativamente nessa região. Ganhámos Cabinda, Luanda e Zaire sem dúvidas, elegemos dois deputados em Malanje, algo inédito, e conseguimos representação em Cuanza-Norte. Estes resultados demonstram que o partido está a crescer e a ser representativo de toda Angola. Mesmo em 2019, quando não apoiei Adalberto Costa Júnior, continuei a ser aproveitada para outras funções dentro da UNITA, sem qualquer marginalização por causa da minha origem.

Alguma vez pensou em candidatar-se à liderança da UNITA?

Não.

A deslocação de Adriano Sapihãla de Benguela para liderar a UNITA em Luanda também gerou críticas. Há quem defenda que o partido perdeu influência em Benguela e não ganhou a coesão esperada na capital. Concorda com essa leitura?

Não concordo, e explico porquê. Adriano Sapihãla trabalhou durante muito tempo no gabinete do presidente Samakuva e depois foi enviado para o Cuando Cubango, onde conseguiu ser eleito deputado. Posteriormente, foi para Benguela, onde os resultados foram positivos: conseguiu eleger dois deputados. Em Benguela, o deputado Avelino Kanjamba, seu então adjunto, embora menos sonante, tem feito um trabalho extraordinário com mulheres, antigos combatentes, homens e juventude. este trabalho prepara o partido para boas surpresas nas próximas eleições gerais. A vinda de Sapihãla para Luanda trouxe uma nova forma de fazer política na capital.

De que forma?

Trouxe um dinamismo muito necessário à UNITA, criando uma força anímica que se tem vindo a notar. Infelizmente, as televisões públicas não dão cobertura, mas as redes sociais mostram a qualidade do trabalho que ele realiza, a clareza dos seus discursos e, sobretudo, a experiência que tem transmitido à Irina Diniz, sua secretária-adjunta.

O deputado Francisco Viana decidiu tornar-se independente, à semelhança de David Mendes, rompendo com a UNITA. Na sua opinião, o partido tem falhado na selecção ou integração de personalidades oriundas da sociedade civil?

Diria que são situações diferentes. (silêncio) No caso do deputado Francisco Viana, ele decidiu sair do Grupo Parlamentar da UNITA para assumir-se como independente, mas o seu pensamento continua muito próximo do da UNITA. Aliás, as últimas intervenções que fez no hemiciclo demonstram claramente esse alinhamento com a visão e os princípios do partido. O caso do ex-deputado David Mendes foi distinto. Ele, quando saiu, posicionou-se contra praticamente tudo o que a UNITA fazia.

A UNITA tem dado espaço a figuras independentes e da sociedade civil no seu Grupo Parlamentar, precisamente para enriquecer o debate, trazer novas perspectivas e até divergir quando necessário. É uma forma de mostrar que o partido está aberto à pluralidade de ideias e que acolhe quem queira contribuir para uma política mais representativa e sintonizada com as aspirações da sociedade civil.

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“A FPU foi uma jogada estratégica que ampliou a base da oposição”

A formação da Frente Patriótica Unida (FPU) foi um passo ousado, mas também controverso. Na altura, não foi fácil para Adalberto Costa Júnior obter o aval do partido. Olhando hoje para trás, considera que a FPU foi uma boa decisão estratégica?

Tendo em conta os resultados alcançados, considero que a criação da FPU foi, de facto, uma boa decisão estratégica. A grande vantagem da FPU foi a capacidade de congregar diferentes sensibilidades, em particular o Bloco Democrático (BD), um partido composto essencialmente por intelectuais. O BD trouxe para o seio da coligação muitas ideias, dinamismo e um forte engajamento cívico, aproximando a UNITA de sectores da sociedade civil tradicionalmente mais próximos dessa formação. Por outro lado, o Bloco Democrático conseguiu mobilizar segmentos da população que não viam a UNITA com bons olhos, mas que, pela presença do BD na coligação, acabaram por votar na UNITA. Essa conjugação de forças e visões contribuiu para alargar a base de apoio político e social da oposição.

E quanto ao PRA-JA?

O mesmo já não posso dizer do PRA-JA, porque muita gente entende que o movimento saiu da CASA-CE, e a CASA-CE, de certa forma, era uma extensão da UNITA.

Entende, então, que o PRA-JA é uma extensão da UNITA?

Bom, eles estão a fazer o seu próprio caminho. É verdade, contudo, que alguns dos seus militantes têm tido comportamentos menos adequados, como insinuar que determinadas pessoas da UNITA estariam a aderir ao PRA-JA. Eu própria fui vítima disso e tive de reagir, e da pior forma. Não gosto de ser insultada, e quando isso acontece, reajo da pior forma. Não gosto de brincadeiras.

O que aconteceu, concretamente?

Na altura, publicaram post a dizer que eu estava a caminho do PRA-JA, o que não era verdade, nem é. Nunca irei para o PRA-JA. Estou na UNITA, firme e forte.

Não considera arriscado dizer “nunca”, sobretudo na vida política?

Digo “nunca” porque me revejo na UNITA, no projecto de Muangai, nos seus valores e princípios. Acredito que nada nem ninguém me fará mudar essa forma de ser e de estar. Não sou uma pessoa comprável nem corruptível. Por isso, da UNITA não saio, e os da UNITA terão mesmo de me aturar.

Há quem defenda que o resultado eleitoral de 2022 se deveu mais à coligação FPU do que à força própria da UNITA. Outros argumentam que foi consequência do desgaste do MPLA. Qual das leituras considera mais acertada?

Meu caro, no boletim de voto a bandeira que apareceu foi a bandeira da UNITA, o galo negro. Não havia lá FPU. As pessoas votaram na UNITA, conscientes de que havia outras forças e personalidades a apoiá-la, mas no dia do voto o símbolo que viram foi o da UNITA, e foi nessa bandeira que depositaram a sua confiança.

Como avalia o actual momento político e institucional do país, num contexto de tensão social, elevada abstenção e descrédito das instituições?

Infelizmente, continuo a defender que Angola precisa de um verdadeiro pacto de regime – e, sobretudo, de um pacto que assegure a despartidarização das instituições do Estado. Refiro-me à despartidarização das instituições, não do Estado em si. Porquê? Porque a larga maioria das instituições públicas está hoje controlada por pessoas ligadas a um único partido político. O país não pode continuar assim. As instituições deixaram de ser credíveis precisamente porque esse partido conseguiu institucionalizar a corrupção em Angola. E, ao institucionalizar a corrupção, acabou por corromper também o funcionamento das próprias instituições do Estado.

Como consegue provar que praticamente todas as instituições do Estado se tornaram corruptas?

Há vários exemplos que sustentam essa percepção. Podemos citar casos ligados à AGT [Administração Geral Tributária), ao INAGBE [Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo], ao programa da Merenda Escolar, entre outros. São exemplos concretos de práticas de má gestão e de corrupção que têm ocorrido em diferentes sectores do Estado. E, em muitos desses casos, quem potenciou ou beneficiou dessas práticas foram figuras ligadas ao MPLA ou com influência dentro do partido.

De acordo com a Constituição, este é o último mandato do Presidente João Lourenço à frente do país. Objectivamente, João Lourenço não será o candidato eleitoral do MPLA em 2027. Quer comentar?

Objetivamente, João Lourenço não é candidato, sabe que não é candidato e não tem qualquer possibilidade de alterar a Constituição para obter um novo mandato. Portanto, o que ele pode fazer são duas coisas: criar um Estado de instabilidade ou estabelecer um Estado de Sítio para suspender a Constituição e prorrogar o seu mandato.

Há quem entenda que essa é uma narrativa criada pela oposição para alimentar o debate político. Como sustenta os cenários que aqui apresenta?

As várias idas à Turquia para aprender com Erdoğan… O outro cenário é o de ter um Presidente da República que poderá ser Adalberto Costa Júnior, mas sem maioria no Parlamento, enquanto João Lourenço, na qualidade de presidente do MPLA, mantém uma maioria simples que pode igualmente obstaculizar a maioria simples de Adalberto Costa Júnior. Este é o segundo cenário.

Acredita que a UNITA vencerá as eleições gerais de 2027?

Acredito piamente que, se não houver fraude e se a Comissão Nacional Eleitoral cumprir as regras e os princípios estabelecidos na Lei Orgânica sobre as Eleições Gerais, a UNITA vencerá as eleições.

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“Fraude começa no registo eleitoral: até os mortos aparecem a votar”

O discurso sobre fraude eleitoral tem sido frequentemente utilizado pela UNITA. Aliás, em 2022, o próprio Adalberto Costa Júnior acabou por dar o dito pelo não dito,  em certos momentos falou em fraude e, noutros, negou essa possibilidade. Como explica essa aparente contradição?

Meu caro, é normal que o presidente da UNITA, em determinado momento, tenha feito esse pronunciamento, porque a sua área de formação não é essa. Devo dizer que há várias formas de se fazer fraude. A primeira é no registo eleitoral. Dou um exemplo: a minha avó faleceu em 2017 e, portanto, não participou nas eleições de Agosto desse ano. Contudo, em 2022, o nome dela apareceu em dois locais diferentes para votar – na antiga Escola 83 e na antiga Escola do Dom Moisés. Estamos a falar de alguém que já tinha morrido há cinco anos e que, em 2022, completaria 100 anos. Ora, não podemos ter pessoas falecidas nos cadernos eleitorais, muito menos permitir que os seus cartões eleitorais sejam eventualmente utilizados por outras pessoas. Isso é uma forma de fraude.

Que outras formas de fraude têm sido alegadamente usadas?

Outra forma de fraude está relacionada com a comunicação social. Desde que Adalberto Costa Júnior se tornou presidente da UNITA, nunca foi entrevistado por um órgão de comunicação social público. Além disso, a Constituição, no artigo 45.º, n.º 2, estabelece que sempre que o Executivo se pronuncie, os partidos políticos na oposição devem ter exactamente a mesma possibilidade de apresentar a sua réplica. E isso, claramente, não acontece.

No plano nacional, o Presidente João Lourenço tem apostado fortemente em infra-estruturas hospitalares e obras públicas. Considera que esta é a prioridade certa ou há outras áreas que deveriam merecer maior atenção do Executivo?

Por isso, meu caro, a malária continua a ser a principal causa de morte em Angola. O Presidente João Lourenço decidiu apostar em grandes obras hospitalares, mas, ao mesmo tempo, temos centros médicos e postos de saúde sem medicamentos e sem assistência médica e medicamentosa nas comunidades. É por isso que os angolanos continuam a morrer como estão a morrer.

Neste momento, e de acordo com as Nações Unidas e a UNICEF, ainda morrem, em Angola, 46 crianças por dia devido à fome, dados de 2022. E a situação não mudou, porque continuamos a ver pessoas a procurar comida nos contentores para alimentar os seus filhos e filhas.

Ora, o que é que acontece? Temos grandes infraestruturas a ser erguidas. Mas para quem são essas grandes infraestruturas? Recentemente foi inaugurado o Hospital Maria Tonha “Pedalé”, que será comparticipado, tal como a Clínica Multiperfil. Ora, o cidadão que não tem dinheiro, e estamos a falar da maioria, num país com cerca de 17 milhões de pobres, terá acesso a esse hospital? Não. Estão a construir-se grandes infraestruturas em Luanda, mantendo-se a mesma lógica de sempre: o país é Luanda, e o resto é paisagem.

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“As autarquias são a chave para resolver os males de Angola”

De que forma é que esse problema pode ser resolvido?

E isso só se resolve com a implementação das autarquias locais. O Presidente da República prometeu aos angolanos que iria realizá-las em 2020. Estamos em 2025 e ele continua a insistir e a persistir em não descentralizar o país, mantendo todo o dinheiro em Luanda para ser ele próprio a distribuir pelas províncias, conforme entende. Além disso, mais de 90% do Orçamento Geral do Estado fica concentrado na estrutura central, e apenas 10% é destinado às restantes províncias. Isso está errado.

Do seu ponto de vista, o Presidente Lourenço terminará o seu mandato sem a realização das autarquias em Angola?

Acho que sim. O Presidente João Lourenço, numa primeira fase, falava das autarquias, queria fazer reformas e pretendia, de facto, construir uma governação completamente diferente da de José Eduardo dos Santos. Mas, a dada altura, percebeu que ou salvava Angola, ou salvava o MPLA, e preferiu salvar o MPLA.

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